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Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, de 28/02/08 Queremos a infância para nós O mundo anda bem atrapalhado:
de um lado, temos crianças que se comportam, se vestem, falam e
são tratadas como adultos. Do outro, adultos que se comportam,
se vestem, falam e são tratados como crianças. Pelo jeito,
infância e vida adulta têm hoje pouco a ver com idade cronológica. Não é
preciso muito para observar sinais dessa troca: basta olhar as pessoas
no espaço público. É corriqueiro vermos meninas vestidas
com roupas de adultos, inclusive sensuais: blusas e saias curtas, calças
apertadas, meia-calça e sapatos de salto. E pensar que elas precisam
é de roupa folgada para deixar o corpo explodir em movimentos que
devem ser experimentados... Mas sempre há um traço que trai
a idade: um brinquedo pendurado, um exagero de enfeites, um excesso de
maquiagem etc. Se olharmos as adultas,
vestidas com o mesmo tipo de roupa das meninas descritas acima, vemos
também brinquedos, carregados como enfeites ou amuletos: nos chaveiros,
nas bolsas, nos telefones celulares, nos carros. Isso sem falar nas mesas
de trabalho, enfeitadas com ícones do mundo infantil. Criança pequena
adora ter amigo imaginário, mas essa maravilhosa possibilidade
tem sido destruída, pouco a pouco, pelo massacre da realidade do
mundo adulto, que tem colaborado muito para desfazer a fantasia e o faz-de-conta.
Mas os legítimos representantes desse mundo, por sua vez, não
hesitam em ter o seu. Ultimamente, ele tem sido comum e ganhou o nome
de deus. Não me refiro ao Deus das religiões e alvo da fé.
A idéia de deus foi privatizada, e cada um tem o seu, à
sua imagem e semelhança, mesmo sem professar religião nenhuma. O amigo imaginário
dos adultos chamado de deus é aquele com quem eles conversam animadamente,
a quem chamam nos momentos de estresse, a quem recorrem sempre que enfrentam
dificuldades, precisam tomar uma decisão ou anseiam por algo e,
principalmente, para contornar a solidão. Nada como ter um amigo
invisível, já que ele não exige lealdade, dedicação
nem cobra nada, não é? E o que dizer, então,
das brincadeiras infantis que muitos adultos são obrigados a enfrentar
quando fazem cursos, freqüentam seminários ou assistem a aulas?
É um tal de assoprar bexigas, abraçar quem está ao
lado, acender fósforo para expressar uma idéia, carregar
uma pedra para ter a palavra no grupo, escolher um bicho como imagem de
identificação, usar canetas coloridas para fazer trabalhos
etc. Mas, se existe uma manifestação comum a crianças e adultos para expressar alegria, contentamento, comemoração e afins, ela tem sido o grito. Que as crianças gritem porque ainda não descobriram outras maneiras de expressar emoções, dá para entender. Aliás, é bom lembrar que os educadores não têm colaborado para que elas aprendam a desenvolver outros tipos de expressão. Mas os adultos gritarem desesperada e estridentemente para manifestar emoção é constrangedor. Com tamanha confusão, fica a impressão de que roubamos a infância das crianças porque a queremos para nós, não? |
Decálogo A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos. Todas
as omissões do Estado, com relação aos itens acima,
deverão ser objetos de ofícios
da direção às Diretorias Regionais de Ensino,
a fim de isentarem o diretor de eventuais responsabilidades administrativas.
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