Estado de Minas, 30/09/2010 - Belo Horizonte MG
Fotografia da educação
Professores precisam de tempo em sua formação Maria Virgínia Ferrara C. Barbosa Fundadora da ConhecerMais, especializada em trabalhos de qualificação do ensino e formação continuada de docentes Outro dia vi uma charge interessante que ilustra o desafio de ser professor hoje. A primeira parte representava o passado: o aluno tira uma nota baixa e os pais, de cara fechada, com o dedo em riste para o filho, estão diante da professora, que também de cara fechada pede ao menino que explique a causa daquele resultado. Na segunda parte, que representa o presente, os personagens são os mesmos, mas dessa vez os pais e filho, aluno que não tirou boa nota, pedem à professora uma explicação para aquele resultado. Seria esta a fotografia da educação no Brasil?
Não é novidade que o nosso país enfrenta um gargalo na educação, com professores sem formação adequada ou com necessidade de se atualizar. A questão é: quando e como esse professor estuda e se recicla? Atualmente, um professor ganha 60% do salário de um profissional de outra área com a mesma escolaridade. Isso significa trabalhar, no mínimo, em duas escolas e outro turno em casa preparando aulas, corrigindo avaliações. Se houvesse políticas públicas que reorganizassem o tempo e o espaço escolares, o professor poderia trabalhar em uma única escola e, em outro período, com seus pares, desenhando projetos de ensino, propostas curriculares, sequências didáticas, analisando e avaliando os alunos e seus trabalhos. A formação continuada deve fazer parte da profissão docente e ser encarada como um direito e uma necessidade, uma vez que a ela se refere essencialmente a ação do professor no âmbito escolar. Uma frase, muito repetida durante um congresso na Espanha, no ano passado, traduz bem o cenário que o professor vive hoje: “Nossa educação é feita em escolas do século 19, com professores do século 20 e alunos do século 21”. Os alunos nascem e vivem na cultura digital; o professor não. Mudar esta perspectiva significa esforço.
No atual modelo de organização do tempo escolar, o principal ponto na formação dos professores está na criação de espaços de interlocução. Eles precisam analisar novas maneiras de agir e se tornar menos intuitivos e mais assertivos. Os professores precisam de tempo em sua formação, “um tempo para refazer identidades, para acomodar inovações, para assimilar mudanças”, como destaca o professor António Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa, no livro Vidas de professores.
Outro especialista engajado na proposta de interação em sala de aula é o professor e doutor em psicologia pela Universidade Autônoma de Madri Ignacio Montero. Ele será o convidado da ConhecerMais, para uma palestra, em 16 de outubro, sobre o tema. Será um convite à reflexão para professores e futuros mestres – estudantes de cursos de licenciaturas. Sou totalmente favorável ao fato de que a aprendizagem do ofício de professor começa e permanece com a reflexão. Mas ele precisa também estar na escola, na sala de aula, trabalhando com os alunos, para compreender a complexidade do processo educacional, trocar ideias com outros professores, conversar com especialistas, para aprender a ser um professor e se aprimorar ao longo de sua carreira. Que autonomia profissional esperar de um professor que não participa das reuniões pedagógicas, que não tem tempo de se envolver em outras atividades promovidas pela escola e, assim, se aproximar de seus alunos e conhecê-los melhor?
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