Matéria publicada na Folha Dirigida, 02/09/2010 - Rio de Janeiro RJ
Uma boa reflexão
Thomas Friedman, jornalista do The New York Times, escreveu um artigo intitulado "Escola não se escolhe por loteria"
Terezinha Saraiva
O artigo mostra-nos, primeiro, que não é apenas o Brasil que se vê diante de problemas na área da educação. Os Estados Unidos também passaram e ainda passam por isto. A diferença está em que nós ainda não conseguimos resolver todos os problemas que afetam nosso sistema educacional. Temos tido um pouco mais de sucesso, quando a natureza dos problemas é de ordem quantitativa; entretanto, quando o desafio está em encontrar a solução para os problemas de ordem qualitativa, ainda não conseguimos superá-los. Evidente, que há ilhas de excelência, escolas que oferecem um ensino de qualidade, formando integralmente seus alunos. Assim, como na educação básica, o Brasil possui Universidades e Faculdades de alto nível. Longe estamos, no entanto, de generalizar os bons resultados alcançados por todas as escolas básicas e de ensino superior, para que o sistema educacional brasileiro alcance a qualidade desejada, seja na rede publica, seja na rede privada. Pois bem, Thomas Friedman nos fala, em seu artigo, sobre o movimento que está agitando o país na área da educação. Este movimento teve inicio com a explosão das novas escolas terceirizadas, que recebem verbas públicas e doações privadas. Prosseguiu com o novo contrato de trabalho do sindicato dos professores de escolas públicas de Washington, que recompensa significativamente os professores que conseguem que seus alunos progridam rapidamente e afasta os que não conseguem.
Com essas duas medidas, os americanos finalmente estão enfrentando, com seriedade, a crise educacional que vinham enfrentando. O jornalista nos diz que uma outra maneira de tomar conhecimento dessa mudança é assistir, a partir de 24 de setembro, ao documentário "Waiting for Superman" (Esperando o Super-Homem) dirigido por Davis Guggenheim. O título do documentário é tirado da entrevista de Geoffrey Canada, fundador da Harlem’s Children Zone, que usou uma estratégia abrangente, incluindo uma creche, programas de serviço social e jornadas mais longas em suas escolas terceirizadas, para criar uma nova estrada para um dos bairros mais problemáticos de Nova York. Geoffrey Canada defende a tese de que não seria com um Super-Homem ou com uma super teoria que consertariam suas escolas; mas sim, "com super-homens e com super-mulheres que sabem o que é preciso fazer para uma escola cumprir sua missão: professores bem formados, sob orientação dos melhores diretores e com o apoio de pais mais participantes". Esta tese é defendida, no Brasil, por muitos educadores. Não temos é conseguido colocá-la em prática. O documentário "Esperando o Super-Homem" segue cinco crianças e seus pais, que desejam obter uma educação pública decente, mas para isto têm que entrar numa espécie de loteria para matricular seus filhos numa boa escola terceirizada, já que as de sua vizinhança estão falidas.
Guggenheim dá partida ao documentário explicando que ele era a favor de mandar as crianças para as escolas públicas do bairro, até que teve que escolher uma escola para seus próprios filhos e, aí, a realidade instalou-se. Diz ele que "seus sentimentos sobre educação pública passaram a não pesar tanto quanto seu medo de matricular seus filhos numa escola que não consegue bons resultados". Diz ele: "a cada manhã, traindo as ideias que tive ao longo da minha vida, passava diante de três escolas públicas, ao levar meus filhos para uma escola particular". E completa: "Mas tenho sorte. Tenho escolha". Já outras famílias, continua Guggenheim, "penduraram sua sorte num computador que gera números em sequência aleatória, num globo de bingo que deixa cair uma bolinha numerada ou na mão que tira um cartão numerado de uma caixa. Isto porque, quando há uma ótima escola pública, não há mais vagas e as crianças e seu futuro ficam nas mãos da sorte" . Na sua entrevista, Guggenheim diz que é "intolerável que, nos Estados Unidos, hoje, um globo de bingo determine o futuro e educação de uma criança, quando há muitas escolas que funcionam, e mais, estão melhorando". O documentário é sobre as pessoas que estão tentando mudar essa situação, a partir da conclusão de que a crise educacional se instalou nos Estados Unidos por pagarem mal e desvalorizarem os professores, compensando-os com bônus, bloqueando reformas que precisam ser feitas. O documentário conclui afirmando que "a chave para o crescimento de um estudante é colocar um bom professor em cada sala de aula, apoiar as escolas terceirizadas". Coloca diante dos que dirigem escolas - professores, líderes sindicais, diretores, pais, conselhos escolares, fundadores de escolas terceirizadas, políticos, a seguinte sugestão: "vocês estão pondo as crianças e sua educação em primeiro lugar?".
Segundo Thomas Friedman a recuperação da educação americana não está sendo um milagre. É o resultado do esforço conjugado de milhões de professores de escolas públicas, privadas ou terceirizadas e dos pais que põem seus filhos em primeiro lugar ao implementar as melhores ideias, e ao fazê-lo, tornam as escolas um pouco melhores a cada dia, superando a crise educacional. "Com a recuperação das escolas, nenhum americano precisará voltar a brincar de bingo da vida com seus filhos ou esperar para ser salvo pelo Super-Homem", termina o articulista. Eis aí um exemplo de que não devemos esperar por um milagre para que o sistema educacional brasileiro tenha a qualidade indispensável. Qualidade que pode ser sintetizada em duas expressões: "saber ensinar" e "fazer aprender". Para isto, é indispensável ter bons professores, remunerá-los condignamente, porque sua missão é altamente relevante; ter gestores eficientes, envolvidos não só nas questões administrativas das escolas, mas sobretudo nos aspectos pedagógicos; atrair as famílias dos alunos para que se façam presentes, acompanhando o desempenho escolar de seus filhos e acreditar que as crianças e sua educação devem estar em primeiro lugar. Quando iremos pensar e agir assim?
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