Educação Infantil pede maturidade
Priscila Fernandes Magrin
A educação infantil está na ordem do dia. É pauta dos jornais, promessa de campanhas políticas, tema de reivindicações sociais, de ações das Varas da Infância e da Juventude e de projetos das casas legislativas dos municípios, dos estados e da Federação. Há um profundo e saudável movimento ocorrendo na educação brasileira. A sociedade se dá conta de que um projeto nacional de educação não pode prescindir do atendimento às crianças de 0 a 6 anos. Já passava da hora.
Todos os avanços da neurociência, da psicologia e da pedagogia dos últimos 30 anos mostram que as conquistas asseguradas nessa etapa da vida reverberam por toda a existência do indivíduo. Dito assim, soa óbvio que se almeje qualidade da educação também para a criança pequena. Mas, se a discussão sobre qualidade da educação assume tonalidades vibrantes no campo dominado do ensino fundamental, a conversa fica ainda mais séria quando o foco é o atendimento às crianças de 0 a 6 anos.
Responder às necessidades típicas e à dinâmica do desenvolvimento dessa faixa etária significa manejar com destreza facetas inseparáveis como cuidar, proteger e educar. Na educação infantil, o trabalho pedagógico assume múltiplas dimensões, configurando-se como um tempo e um espaço de formação integral, de experimentação, de aquisição de habilidades, de convivência social e de contato com múltiplas linguagens. O conhecimento não é hierarquizado em disciplinas e se preserva o livre brincar como processo de elaboração simbólica fundamental para a criança.
Não faltam ao Brasil bases teóricas, estudos de caso ou informações sobre os princípios que devem fundamentar a educação das crianças de 0 a 6 anos. Mas, embora tenhamos diretrizes bem desenhadas no âmbito do planejamento, ainda estamos longe de concretizá-las nas políticas públicas de municípios e estados brasileiros. País afora, temos visto a grande dificuldade das escolas públicas e privadas em atender à criança pequena. Não há mobiliário adequado, não há material pedagógico, não há professores capacitados.
Pesquisas recentes, como a empreendida em 2010 pela Fundação Carlos Chagas, sob encomenda do Ministério da Educação (MEC) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mostram que a escola simplesmente não sabe o que fazer com as crianças que recebe. Falta uma proposta educativa genuína para a infância, uma proposta protegida do risco de vermos nossas creches e pré-escolas transformadas em antessalas do ensino fundamental, nas quais se antecipam processos para os quais nem toda criança está cognitivamente preparada.
Portanto, hoje, Dia da Infância, temos uma boa oportunidade para refletir sobre este tema. Pensar nos alunos do futuro, sim, mas, antes, nas crianças do presente. Daremos uma demonstração real de maturidade se formos capazes de desenhar um projeto público de educação infantil assentado em uma visão mais ampla e compreensiva da infância.
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