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Matéria publicada no
jornal Folha de São Paulo, de 27/07/10
Não existe palmada
bem dada
Violência gera violência,
como a neurociência já constatou diversas vezes
SUZANA HERCULANO-HOUZEL
- suzanahh@gmail.com
CLARO que o objetivo não é
colocar na prisão aqueles pais que, incapazes de resolver
desavenças com seus filhos na base da conversa, recorrem
à punição física na forma de "uma
palmada bem dada", no afã de impor alguma sombra de
autoridade.
O estatuto que proíbe a punição
corporal de crianças visa a que se deixe de considerar normal,
necessário ou saudável "educar" com violência.
Como a sociedade que pune com prisão quem bate em velhinhos
aceita que pais batam em suas crianças?
O problema tem vários níveis,
e só um deles (ainda que de grandes consequências para
as gerações futuras) é o seguinte: violência,
não importa em qual forma, gera violência, como a neurociência
já constatou várias vezes.
Funciona igualmente com camundongos e com
humanos: o cérebro que recebe maus tratos na infância
sofre várias mudanças, incluindo alterações
em seu sistema de recompensa, que antecipa bons resultados; na amígdala,
que sinaliza maus resultados; e no hipocampo, que forma memórias
novas e cuida de nossa lista mental de "problemas a resolver".
O resultado? Crianças que recebem
restrição corporal, palmadas, sacudidas ou abuso verbal
(castigos que muitos consideram brandos) se tornam adultos com propensão
a comportamento antissocial e agressivo, transtornos de ansiedade,
depressão, alcoolismo e outras formas de dependência
química.
"Mas eu recebi palmadas na infância
e me tornei um adulto saudável, portanto, palmadas não
fazem mal", dizem vários defensores das palmadas educativas.
Pelo contrário: graças à
resiliência do cérebro (sua capacidade de se recuperar
de agressões variadas), ao que tudo indica essas pessoas
que sofreram maus tratos na infância provavelmente se tornaram
adultos saudáveis APESAR das palmadas.
E, justamente por causa da capacidade do
cérebro de se adaptar, essas crianças punidas com
violência viraram adultos que hoje acham normal... punir com
violência.
Felizmente existe antídoto, tão
ao alcance quanto uma palmada. Também funciona com camundongos
e crianças, também é comprovado pela neurociência,
também muda o cérebro para o resto da vida e se autopropaga.
Chama-se carinho e, no caso dos humanos,
se vier acompanhado de apoio moral, bons exemplos, compreensão
e conversa, melhor ainda.
SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista,
é professora da UFRJ e autora de "Pílulas de
Neurociência para uma Vida Melhor" (ed. Sextante) e do
blog www.suzanaherculanohouzel.com
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