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Matéria publicada no
jornal Folha de São Paulo, de 07/07/10
Tristeza profunda
CRISTINA GRILLO
RIO DE JANEIRO - Estudei
em escola pública. Não em uma daquelas que ocupam
o topo dos rankings de desempenho, mas em uma pequena escola de
subúrbio, hoje cercada por favelas violentas, em uma das
muitas "faixas de Gaza" que separam os cariocas em castas.
Lá, tinha professores
dedicados, disciplina rigorosa e aulas que me prepararam para, anos
mais tarde, enfrentar um disputado vestibular e conseguir vaga em
uma universidade federal.
Uma vez por semana íamos
à biblioteca, sala enorme com estantes cobertas de volumes
coloridos. Escolhíamos livros que, mais tarde, discutiríamos
em sala de aula. Tínhamos aulas de música, artes.
Lembro-me de carregar
na pasta -não se usavam mochilas- uma caixa de fósforos
cheia de grãos de feijão que me ajudavam a entender
os conceitos de matemática.
Crianças assustadas,
fazíamos de tudo para passar longe do consultório
onde um dentista nos examinava e, se nos comportássemos,
nos dava de presente uma escova de dentes novinha. Agentes do posto
de saúde nos visitavam para cuidar de nosso bem-estar.
Boas lembranças.
Por isso me bate uma tristeza profunda quando vejo os resultados
do Rio de Janeiro no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação
Básica), divulgados pelo MEC no início da semana.
Na classificação
até o quinto ano, 42% de nossas escolas não atingiram
a meta proposta, a segunda pior colocação entre os
Estados. A situação piora quando se avaliam as escolas
até o 9º ano: 62% estão abaixo da projeção,
o pior índice do país.
No ensino médio
o Estado tirou 2,8, à frente apenas do Piauí. Ficamos
muito abaixo da já reduzida média nacional -3,6.
Se, nos tempos da Escola
Ruy Barbosa, aparecesse em casa com uma nota dessas, levaria uma
bronca inesquecível.
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