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Matéria
publicada no jornal Folha de São Paulo, de 29 de junho de
2010.
ROSELY
SAYÃO
roselysayao@uol.com.br
É tempo de criança
entediada
As férias mostram que
os filhos não sabem mais brincar sozinhos, por responsabilidade
absoluta dos seus pais
QUANDO AS FÉRIAS escolares
se aproximam, muitos pais já sabem aquilo que os espera.
Como os filhos não sabem brincar sem a direção
dos adultos, acabam não sabendo como preencher o seu tempo
livre .
Então, vão atrás
dos pais em busca de ajuda; isso acontece, inclusive, quando os
pais estão em horário de trabalho. Ah! Esse telefone
celular que acabou com todas as portas fechadas entre pais e filhos...
Hoje, as crianças não
sabem mais brincar sozinhas: elas não sabem o que querem
fazer, não sabem do que gostam, não têm curiosidade
em explorar o que as circunda. E isso acontece por nossa inteira
responsabilidade. Desde quando criança precisa aprender a
brincar? Pois, agora, elas precisam.
Desde pequenas, acostumamos
as crianças com a presença de um adulto responsável,
inclusive e principalmente, por entretê-la. Quando pais contratam
babás, querem alguém que tenha paciência de
brincar com a criança por horas e horas, mais do que cuidar
dela.
As escolas de educação
infantil, de um modo geral, seguem mais ou menos o mesmo esquema.
Do momento em que a criança entra na escola até o
final do período, têm atividades previamente programadas.
Como se não bastasse tudo isso, desde que nascem as crianças
têm à sua disposição uma infinidade de
brinquedos de todos os tipos e cores, que produzem os mais variados
sons etc. Os pais fazem isso com boa intenção, mas
o exagero na quantidade de brinquedos produz o efeito oposto do
que pretendiam: em vez de interessar a criança, esse arsenal
de objetos lúdicos acaba por cansá-la e fazer com
que não tenha interesse real por nenhuma daquelas coisas.
Ter brinquedos não garante
à criança o ato de brincar e ter muitos a leva a não
dar atenção a nenhum. E não temos reclamado
da atenção dispersa, mais tarde?
Quem vê uma criança
brincar por muito tempo com um de seus brinquedos? Em geral, o comportamento
dela é o de pegar e descartar vários, muito rapidamente.
É bom lembrar que quando a criança tem muitos brinquedos
não tem nenhum deles porque, ao pular de um para o outro,
não consegue construir uma brincadeira.
Temos criado, dessa maneira,
crianças que se entediam com muita facilidade. As férias
são uma boa ocasião para os pais saírem da
cena tipicamente infantil. Claro que isso não significa abandonar
a criança, já que ela teve poucas oportunidades de
ser empreendedora em suas brincadeiras. Dar algumas pistas, lançar
poucos desafios são exemplos de ofertas que não gerenciam,
tampouco desamparam a criança em sua demanda.
Conheço uma mãe
que tem conseguido, não sem esforço, levar sua filha
a criar suas brincadeiras e ficar bastante tempo interessada nelas.
Sua atitude pode servir de inspiração, mas não
de modelo.
Ela sugeriu à garota,
de pouco mais de oito anos, que construísse uma "caça
ao tesouro", brincadeira bem conhecida das crianças.
A garota ficou totalmente concentrada
na atividade porque a mãe dissera que, se as charadas fossem
fáceis, ela não brincaria com a filha. A estratégia
da mãe funcionou: a filha ficou ligada na brincadeira e a
mãe gastou pouco mais de 10 minutos, à noite, para
participar com a filha e fazer a sua parte.
Digo e repito: temos feito uma
grande confusão na convivência com as crianças.
Fazemos o que não precisa ser feito e deixamos de fazer o
que é imprescindível. Já é hora de revertermos
esse quadro.
ROSELY SAYÃO é
psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?"
(Publifolha) blogdaroselysayao.blog.uol.com.br
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