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Matéria publicada no
jornal Folha de São Paulo, de 26/06/10
Educação
infantil e desempenho
FERNANDO VELOSO
O ensino infantil de qualidade
pode aumentar a eficiência escolar e reduzir a desigualdade
social
EXISTE GRANDE interesse entre
pesquisadores e gestores em entender como a educação
infantil pode contribuir para melhorar o desempenho escolar. A literatura
acadêmica mostra que a educação infantil pode
gerar vários benefícios.
Por exemplo, pesquisas em neurociência
mostram que o aprendizado é mais fácil na primeira
infância que em estágios posteriores. A educação
infantil também pode contribuir para o estímulo de
certas características de comportamento e traços de
personalidade, como sociabilidade, autoestima, persistência
e motivação.
Vários estudos mostram
que essas características melhoram o desempenho educacional.
Além disso, reduzem a probabilidade de envolvimento com drogas
e atividades criminosas. Em razão dessas evidências,
vários países têm elevado os investimentos na
educação infantil e atribuído importância
crescente a esse nível de ensino no sistema educacional.
No Brasil, várias mudanças
na legislação foram efetuadas com essa finalidade
desde a década de 1990.
Nesse período, a educação
infantil foi incorporada ao nível da educação
básica e passou a contar com uma importante fonte de financiamento,
com a criação do Fundeb, em 2007. Além disso,
a emenda constitucional 59/2009 estabeleceu a obrigatoriedade do
ensino para todas as crianças a partir de quatro anos.
Um estudo recente da Fundação
Carlos Chagas mostrou, porém, que a qualidade da educação
infantil no Brasil é muito baixa. A pesquisa avaliou a qualidade
do ensino infantil em Belém, em Campo Grande, em Florianópolis,
em Fortaleza, no Rio de Janeiro e em Teresina. Tanto na creche como
na pré-escola, a média geral foi um pouco acima de
3, correspondente ao nível básico, em uma escala na
qual o menor nível era inadequado (pontuação
entre 1 e 3) e o nível máximo era excelente (8,5 a
10).
Entre as áreas avaliadas,
as atividades desenvolvidas com as crianças tiveram a pior
avaliação, sendo classificadas no nível inadequado.
A estrutura do programa, que estabelece as rotinas diárias,
também teve uma pontuação muito baixa.
Nesse contexto de baixa qualidade
dos serviços prestados, é pouco provável que
a expansão da oferta de educação infantil no
Brasil tenha os efeitos desejados. Para que a educação
infantil possa melhorar significativamente o desempenho escolar,
é necessária uma combinação de características,
como mostram várias pesquisas.
Primeiro, os professores devem
receber treinamento intensivo e possuir formação específica
para lecionar no segmento de educação infantil. Outra
característica importante é um baixo número
de crianças por professor, para permitir que os professores
dediquem uma atenção diferenciada para cada criança.
Além disso, é preciso que as atividades diárias
sejam guiadas por uma estrutura curricular específica para
essa faixa etária.
Finalmente, é muito importante
que os pais sejam envolvidos na educação de seus filhos.
Nesse sentido, a creche ou a pré-escola não devem
ser vistas como um substituto da família, mas como uma ferramenta
complementar na construção de um ambiente de aprendizado
estimulante para as crianças.
Pelo fato de serem intensivos
e se caracterizarem por turmas pequenas e professores com treinamento
específico, os programas bem-sucedidos de educação
de primeira infância em geral são mais caros que as
alternativas tradicionais.
Portanto, será um grande
desafio expandir o acesso à educação infantil
no Brasil com o nível de qualidade necessário. Uma
boa notícia é que vários estudos mostram que
seus benefícios são muito superiores aos seus custos.
Além disso, a oferta de
ensino infantil de qualidade tem se mostrado eficaz para melhorar
o desempenho escolar de crianças criadas em ambientes socioeconômicos
muito desfavoráveis. É um exemplo raro de uma política
pública que pode ao mesmo tempo aumentar a eficiência
e reduzir a desigualdade social. Não vai ser fácil,
mas é um desafio que é muito importante enfrentar.
FERNANDO VELOSO, economista e
professor do Ibmec/RJ, escreve mensalmente neste espaço,
aos sábados.
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