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Matéria publicada na
Revista Veja, Edição 2170 / 13 de junho de 2010
Medicina: Uma vitória
da vida
Como os avanços notáveis
nos tratamentos estão derrotando o câncer e fazendo
com que ele perca a imagem sombria de predador. Para a sua desmitificação,
contribuem e muito os depoimentos de gente famosa,
como José Alencar, Hebe Camargo, Christina Applegate e Lance
Armstrong, que resiste à doença com bravura e otimismo
Os versos acima são de João Cabral
de Melo Neto, morto em 1999 não de câncer, mas
de causas associadas a uma doença degenerativa. Poeta virtuoso,
um dos maiores da língua portuguesa, João Cabral conseguiu
condensar seu tema numa imagem cotidiana, de alcance universal:
para além do alto grau de incidência da doença,
a fatalidade com que o diagnóstico de câncer costuma
ser recebido. De fato, está longe de ser uma banalidade ouvir
que se é hóspede de um tumor maligno. Mas também
é verdade que isso deixou de significar, necessariamente,
a emissão de um atestado de óbito. Pegue-se, a título
de exemplo, o caso do vice-presidente José Alencar. Em setembro
do ano passado, em entrevista a VEJA, ele disse: "Estou preparado
para morrer". Naquela ocasião, Alencar iniciava sua
11ª batalha contra um câncer na região abdominal,
detectado em 2006. Com um prognóstico sombrio, a declaração
à revista soou como a rendição de um homem
até então otimista. De lá para cá, no
entanto, Alencar apareceu mais 28 vezes nas páginas de VEJA
em meio, principalmente, a notícias políticas
e econômicas. A quimioterapia a que ele vem sendo submetido
tem dado resultados positivos. Os médicos não falam
em cura, mas Alencar tem levado uma vida praticamente normal. Foi
padrinho de casamento do irmão e chegou até a cogitar
candidatar-se ao Senado nas eleições de outubro. O
quadro clínico do vice-presidente ilustra não só
a sua resistência física e emocional, como a evolução
impressionante da medicina diante do câncer nos últimos
dez anos.
"O câncer moldou a sua própria
mitologia de um predador obsceno e demoníaco, um caçador
sombrio e invencível", definiu o biólogo inglês
Mel Greaves. A aura de obsceno, demoníaco e sombrio é
difícil de cancelar, em que pese o comportamento de pessoas
corajosas como Alencar. Invencível, contudo, o câncer
não é mesmo, enfatize-se. Hoje, 75% dos casos flagrados
em estágio inicial podem ser curados. Quarenta por cento
a mais em relação ao que ocorria na década
de 70. Isso, na média. O índice de remissão
total no tratamento de um tumor como o de fígado, antes altamente
letal, hoje é de 85% contra 35% na década passada.
Resultados tão exuberantes estão fazendo com que os
pacientes comecem a falar abertamente da doença, com uma
esperança que aviva em si próprios e em seus semelhantes
a disposição para enfrentar o câncer
melhorando, assim, o grau de adesão às terapias, num
círculo virtuoso que ajuda a elevar as estatísticas
de cura. Nesse sentido, as celebridades atingidas pela doença
têm dado um bom exemplo ao expor sua luta. "A batalha
contra o tumor trouxe um novo sentido à minha vida",
disse, em 2008, a atriz americana Christina Applegate, então
com 36 anos, à rede de televisão ABC. Na entrevista
que emocionou milhões de americanos, ela contou que havia
sido submetida à extirpação total das duas
mamas em decorrência de um câncer de origem hereditária.
No ano seguinte, ela recebeu uma homenagem da revista americana
People: foi capa da publicação na condição
de "a mulher mais bonita do mundo". Recentemente, foi
a vez de a apresentadora brasileira Hebe Camargo, de 81 anos, dar
seu testemunho, relatando, "toda serelepe", como enfrentou
a quimioterapia a que foi submetida para eliminar um câncer
no peritônio, a membrana que reveste os órgãos
da região abdominal. "Descobri que a doença não
é o monstro de que tanto falam. É preciso acabar com
essas besteiras", disse Hebe a VEJA.
As notícias estão melhores também
para os pacientes sem chance de cura. Hoje, no Brasil, há
cerca de 170 000 homens e mulheres nessa condição.
"Pelo menos a metade deles consegue manter uma rotina razoavelmente
normal, por causa das novas medicações desenvolvidas
pela oncologia", diz Sergio Simon, oncologista do Hospital
Albert Einstein, em São Paulo. Ou seja, podem tocar o dia
a dia livres de dor e com mais autonomia. Um dos tumores mais agressivos
e resistentes a tratamentos é o de pulmão em fase
de metástase, quando já se alastrou para pelo menos
outro órgão. Mesmo assim, a média de sobrevida
de um paciente nessas condições pulou para dois anos.
Na década de 90, era de apenas sete meses."Qualquer
tempo a mais é essencial para que o doente tenha a oportunidade
de apaziguar-se, pondo em ordem a vida prática, familiar
e emocional", diz o oncologista Bernardo Garicochea, da Pontifícia
Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul. Pode parecer
pouco, mas a possibilidade de antever o fim da própria existência
com tranquilidade é algo belo desde que se adote a
perspectiva do pensador romano Cícero, ecoada pelo francês
Montaigne, segundo a qual "filosofar não é outra
coisa que preparar-se para a morte".
Um dos caminhos de tratamento contra o câncer
mais investigados pela medicina refere-se à criação
de vacinas terapêuticas medicamentos que estimulam
o sistema imunológico no combate às células
cancerosas. Há dois meses, a FDA, a agência americana
de controle de remédios, aprovou a primeira dessas vacinas.
Desenvolvida pelo laboratório Dendreon, a Provenge é
destinada a pacientes com câncer de próstata. Nos testes,
doentes com tumor em estágios avançados ganharam,
em média, cinco meses a mais de uma vida relativamente boa.
O entusiasmo dos médicos com a Provenge não se explica
apenas pelo aumento da sobrevida dos pacientes. "Só
de se revelar eficaz, essa vacina simboliza um marco nas terapias
anticâncer", diz o oncologista Gustavo Guimarães,
do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo. O maior feito dos
inventores da Provenge foi ter vencido um grande obstáculo
no desenvolvimento das vacinas terapêuticas: o de levar o
organismo a identificar apenas as células cancerosas como
agentes nocivos e, assim, passar a tentar destruí-las. "O
corpo tem extrema dificuldade em reconhecer o câncer como
um ser estranho, já que ele surge de células sadias",
explica o médico Marcello Fanelli, também do Hospital
A.C. Camargo.
A frente imunológica de combate ao câncer
foi inaugurada nos anos 70, com a chegada ao mercado do interferon.
Lançado originalmente para o combate de viroses respiratórias,
o remédio logo teve seu uso ampliado para pacientes com tumores
malignos, por ter se mostrado um potente estimulador do sistema
de defesa do organismo. Mas, apesar de todas as esperanças
depositadas no interferon, ele não se revelou eficaz. Ao
contrário das novas vacinas, desenhadas para facilitar o
reconhecimento das células cancerosas, ele não conseguia
deter a proliferação dos tumores, porque sua ação
era muito difusa. O interferon só é usado hoje como
ultimíssima cartada contra tipos raros de câncer. Entre
esses tumores estão alguns linfomas e o melanoma. O seu efeito,
no entanto, é muito limitado.
Para desenvolverem a vacina Provenge, seus idealizadores
escolheram trabalhar com a célula CD54, uma proteína
do linfócito responsável por disparar o alarme do
sistema imunológico contra a presença de um corpo
estranho no organismo. Eles a marcaram com uma proteína criada
em laboratório muito semelhante à PAP, encontrada
em 95% dos tumores de próstata. Ao ser injetada no paciente,
a CD54 modificada ensina as outras células de defesa a identificar
como agente agressor aquelas que contêm a proteína
PAP. A Provenge representa uma conquista e tanto, mas ela demorará
a se tornar um tratamento de rotina. Suas três doses custam
98 000 dólares. Isso porque seu processo de fabricação
é complicado, visto que as CD54 a ser modificadas precisam
ser retiradas de cada paciente.
Estudam-se vacinas terapêuticas para glioma,
o tipo mais comum e letal de tumor de cérebro (que vitimou
o senador americano Ted Kennedy), melanoma e cânceres de pulmão
e mama. Elas foram um dos assuntos de maior destaque durante o 46º
Congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco),
realizado há três semanas em Chicago, nos Estados Unidos.
Um dos trabalhos que alvoroçaram os participantes foi o da
vacina ipilimumabe, contra o melanoma, do laboratório Bristol-Myers
Squibb. Os últimos resultados mostraram que a ipilimumabe
pode dobrar a expectativa de vida de pacientes vítimas da
doença em estágios avançados. Isso significa
dois anos a mais, em média, em comparação com
os doentes submetidos a tratamentos convencionais. A vacina contra
o glioma, batizada pelo laboratório Pfizer de CDX-110, impediu
a progressão da doença por, em média, cinco
meses. Vale repetir: por enquanto, o grande mérito de tais
vacinas, muito mais do que o aumento da sobrevida em si, é
a comprovação de que a imunoterapia é um caminho
viável na luta contra o câncer.
Além das vacinas, existem 295 novos medicamentos
em estudo contra os mais diversos tipos de câncer o
triplo em relação há dez anos. Eles são
quimioterápicos e, em grande parte, pertencem ao grupo das
terapias-alvo que impedem a proliferação das
células tumorais, sem afetar as células saudáveis.
Com esse mecanismo, reduzem-se enormemente os efeitos colaterais.
Os primeiros remédios dessa classe surgiram no início
dos anos 2000. Entre os mais utilizados estão o Avastin (contra
os tumores de intestino, mama e rim), o Erbitux (intestino), o MabThera
(linfoma), o Herceptin (mama), o Nexavar (fígado e rim) e
o Sutent (rim).
Com o aprimoramento da análise genética
dos tumores, tais medicamentos da terapia-alvo são o primeiro
passo rumo ao tratamento individualizado um sonho dos oncologistas,
visto que, não bastasse haver 802 tipos de neoplasia, tumores
idênticos podem responder de formas diferentes a um mesmo
procedimento. Veja-se o caso do Erbitux. Em 2007, um ano depois
de ter sido lançado, descobriu-se que os pacientes com câncer
de intestino em fase avançada portadores de uma mutação
no gene KRAS, específica de alguns tumores no órgão,
não respondem ao medicamento. Quatro em cada dez doentes
apresentam essa alteração genética. Ou seja,
ao abandonarem um tratamento ineficaz, eles não perdem tempo
para tentar buscar armas mais efetivas contra o seu problema. Na
conferência em Chicago, foram apresentados resultados de um
estudo com o remédio crizotinib, contra câncer de pulmão.
Fabricado pelo laboratório Pfizer, ele está na fase
dois de pesquisa, aquela que atesta a eficácia e a segurança
do produto. O novo medicamento destina-se a pacientes cujo tumor
possui uma mutação no gene ALK. Diz o oncologista
Paulo Hoff, do Hospital Sírio-Libanês, em São
Paulo: "A personalização dos tratamentos pode
ser a peça que faltava para entender esse quebra-cabeça
complexo chamado câncer".
Sobrevida (muito) maior
Em janeiro, a apresentadora Hebe Camargo, de 81 anos, foi diagnosticada
com um câncer no peritônio, a membrana que reveste os
órgãos da região pélvica e abdominal.
A doença está controlada graças ao tratamento
quimioterápico ao qual ela foi submetida. Dos anos 90 para
cá, com o surgimento de medicações mais precisas
contra esse tipo de tumor, as chances de sobrevida aumentaram 50%
Genética contra os tumores
Aos 36 anos, em 2008, a atriz americana Christina Applegate anunciou
ter passado por uma mastectomia bilateral a retirada da mama
onde o tumor foi encontrado e a extração preventiva
da outra, sadia. Christina tomou essa decisão radical por
ser portadora de uma alteração genética que
funciona como uma condenação ao câncer de mama.
Hoje, graças à profilaxia genética, a probabilidade
de ela ter uma recidiva da doença gira em torno de 1% (sempre
sobram células mamárias depois da mastectomia).
Bravura e uma dezena de tratamentos
Desde 2006, quando recebeu o diagnóstico para o câncer
na região abdominal, o vice-presidente José Alencar,
de 78 anos, vem resistindo bravamente à doença. Está
no seu 11º tratamento. Ele já foi submetido a cirurgias
agressivas, sessões de radioterapia e até a um medicamento
ainda em fase experimental. Os médicos não falam em
cura, mas Alencar tem conseguido levar uma vida praticamente normal.
Dez anos atrás, mesmo um paciente com tanta coragem como
ele não teria como enfrentar a doença
A cura possível
Aos 25 anos, o ciclista Lance Armstrong era um dos maiores campeões
do seu esporte, quando foi diagnosticado com câncer nos testículos
A doença já estava em fase avançada e havia
atingido o cérebro, os pulmões e a região abdominal.
Armstrong, então, passou por duas cirurgias: uma para a retirada
de tumores nos testículos e uma no cérebro. Além
disso, foi submetido a quatro meses de quimioterapia. Pacientes
como Armstrong, dez anos antes, não sobreviveriam a esse
quadro. A cura do ciclista se deve em grande parte ao aperfeiçoamento
das técnicas cirúrgicas e à ação
mais específica dos medicamentos modernos que, catorze
anos depois, estão ainda mais eficientes.
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