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Matéria publicada na
Revista Veja, Edição 2170 / 13 de junho de 2010
Separação,
o drama de todos
Lya Luft
"Se a separação
dos pais pode resultar em crescimento e multiplicação
de afetos, com boas lições de vida, pode também
causar muita desagregação e infelicidade, muita solidão"
Sempre fui favorável a não
se curtir sofrimento inútil em longos casamentos nos quais
em lugar de carinho e parceria imperam frieza e hostilidade
e se acumula o rancor que envenena sobretudo os filhos. Nem em nome
deles, pensei muitas vezes, casais assim deveriam ficar juntos,
pelo mal que causam. De certa forma continuo pensando isso, tanto
tempo depois de minhas primeiras e precoces reflexões sobre
o assunto, eu que vivi numa família de cuidados, afeto e
alegria, apesar das naturais diferenças. Porém, a
realidade da vida, numa sociedade em que as separações
se banalizaram como se as emoções humanas tivessem
deixado de vigorar, me ensinou que toda separação
abre em pais e filhos feridas que podem não se fechar nunca
mais, e que não precisaria ser assim.
Já disse e escrevi
que, quando é uma solução inevitável
e melhor em conflitos graves, a separação dos pais
com todas as mudanças impostas na vida dos filhos,
que não estão se separando, não querem se separar
de nenhum dos pais nem mudar de casa, quem sabe de cidade
pode não ser unicamente um mal. Propicia um exercício
de novos afetos, de compreensão e tolerância, também
de parte dos filhos de qualquer idade com relação
aos adultos. Costumamos bater na tecla de cuidar dos filhos, mas
raramente nos lembramos de que há uma parte nessa relação,
nem sempre fácil, que cabe aos filhos diante de seus pais.
Já na pré-adolescência podemos exercitar nosso
amor, respeito e tentativa de entender alguns dramas adultos, se
não formos criados como pequenos príncipes mimados
e birrentos, que batem pé diante do sofrimento alheio e não
se importam com os outros.
É verdade que
aceitar que os pais já não moram juntos, que temos
de nos separar de um deles, a quem veremos, talvez, em dias marcados
e enfrentando, cara a cara ou de maneira surda e insidiosa, a raiva
e os rancores do casal que se separa, há de ser muito duro.
Há de ser triste, e marcante na alma dos filhos, sobretudo
se a separação for acompanhada de violência,
perseguição, desejo de vingança. Existem os
casos brandos, eu sei, e conheço vários, esses em
que apesar das dificuldades o casal procura se separar com civilidade
e compreensão, não fechando para os filhos, pequenos
ou adolescentes, a porta do amor ao pai ou à mãe.
Ensinando a aceitar e respeitar o novo parceiro ou parceira deles:
essa parte talvez mais difícil de todas em qualquer separação.
Pois as escolhas são sempre dos pais, não dos filhos:
separar-se, assumir novo parceiro ou parceira, que possivelmente
trazem seus próprios filhos, tentando criar um novo tipo
de relacionamento e forçado convívio, há de
ser uma difícil e dolorosa gangorra emocional. Se pode resultar
em crescimento e multiplicação de afetos, com boas
lições de vida, pode também causar muita desagregação
e infelicidade, muita solidão.
Como agir para não
prejudicar os mais importantes laços de qualquer pessoa,
no caso de separação e novos casamentos? Não
há receita nem espaço para julgamento. Mas lembro
a velha fórmula das estradas de ferro: parar, olhar, escutar...
a alma do outro também. Novas pessoas estarão envolvidas,
novos feixes de emoção, novas tendências genéticas
e conflitos psíquicos por vezes antigos, velhos costumes
que agora se envolvem ou enfrentam estreitamente. É preciso
conviver, e não machucar pessoas amadas. Culpas infundadas
crescem como cogumelos, buracos traiçoeiros podem se abrir
no chão fundamental sobre o qual caminhamos: o convívio
natural, a família. As responsabilidades são enormes,
e as tempestades do momento podem nos fazer esquecer isso, em casos
que envolvem tantos problemas e dilemas. Tudo é um tatear
no escuro da floresta das humanas necessidades e aflições.
Num contexto de convívio e ruptura, no meio dessa tempestade
por vezes longa, esperam-se posturas evidentes, mas nada fáceis:
bom senso, bondade, capacidade de entender e observar, e desejo
real de, apesar dos fatais desacertos, buscar para si e para os
outros envolvidos o sofrimento menor.
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