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Matéria publicada
no jornal Folha de São Paulo, de 21/06/10
Quando o
errado está certo
FERREIRA GULLAR
Sabe-se que, para a maior
parte dos linguistas, não existe isso de falar errado: todo
o mundo fala certo
MUITA GENTE torce o nariz
quando um chatola, como eu, começa a reclamar dos erros de
português que se cometem nos jornais e na televisão.
Desses, muitos dos que os cometem são profissionais, mas
estão pouco ligando para o que consideramos escrever e falar
errado.
Sabe-se que, para a maioria
dos linguistas, não existe isso de falar errado: todo o mundo
fala certo. Admitem existir uma "norma culta", que obedece
às regras gramaticais, mas violá-las não é
propriamente errar. Ouvi de um deles que está tão
certo dizer "pobrema" como "problema". Obtuso
como sou, tenho dificuldade de entender por que eles mesmos vivem
escrevendo livros e colunas em jornais, ensinando como se deve escrever.
Ora, se não existe falar errado, por que ensinar?
Não deve o leitor
concluir daí que sou aquele morrinha que vive catando os
deslizes de cada um, mesmo porque não posso me considerar
um grande conhecedor da língua. Gosto dela, prezo-a ou, melhor
dizendo, considero-a uma das extraordinárias criações
do gênio humano. Não é maravilhoso imaginar
que, muito antes de surgirem os gramáticos, nossos ancestrais
já falavam obedecendo às normas que tornaram o idioma
meio de comunicação entre as pessoas e de invenção
do nosso mundo cultural?
Pense bem nesta maravilha:
a palavra "este" indica algo que está perto de
mim; "esse", o que está perto de você; e
"aquele", o que está longe de nós dois.
Eis a linguagem expressando as relações reais do sujeito
e das coisas do mundo. Não obstante, todos os locutores de
rádio e televisão, como a maioria dos jornalistas,
referindo-se ao que está perto de si, usam "esse"
em lugar de "este". E isso é hoje tão frequente
que já nem se repara.
Ninguém vai morrer
por isso, mas não deixa de ser preocupante observar as pessoas
deformarem e empobrecerem a língua, usando, por exemplo,
"sobre" como regência de quase todos os verbos.
Em vez de "comentou
os fatos" dizem "comentou sobre os fatos"; em vez
de "quando falou do problema", dizem "quando falou
sobre o problema"; em vez de "alertado do ataque",
dizem "alertado sobre o ataque", e por aí vão.
Em certas frases, o uso
de "sobre" chega ao limite do desatino: "o deputado
aguarda o desmentido sobre a denúncia", quando seria
muito mais simples e elegante dizer "aguarda o desmentido da
denúncia". Vá você, agora, explicar como
surgiu essa mania do sobre, que espero seja apenas uma mania, como
outras que surgiram e se foram.
Lembram-se da época
em que todos usavam a expressão "a nível de"?
Servia para qualquer coisa, como ouvi um entrevistado afirmar que,
"a nível de ração para porcos, o melhor
seria...". Felizmente, essa mania passou, o que me faz crer
que a língua termina por excluir de si as excrescências
que nela se introduzem. Mas parece que nem sempre, porque, às
vezes, o mau uso se generaliza e até mesmo se oficializa.
Existe coisa mais descabida
do que chamar de "sambódromo" uma passarela para
desfile de escolas de samba? Em grego, "-dromo" quer dizer
"ação de correr, lugar de corrida", daí
as palavras autódromo e hipódromo. É certo
que, às vezes, durante o desfile, a escola se atrasa e é
obrigada a correr para não perder pontos, mas não
se desloca com a velocidade de um cavalo ou de um carro de Fórmula
1.
Muitas vezes, à
irreverência junta-se a ignorância, a pouca leitura
dos bons escritores. Não é que tenhamos de escrever
como escrevia Camões, mas o conhecimento do idioma, em seus
diferentes momentos históricos e em suas mudanças,
ajuda-nos a preservar a língua no que tem de essencial como
também a transformá-la sem lhe trair a natureza. É
essa ignorância que leva alguns redatores de televisão
a substituir "risco de vida" por "risco de morte",
achando que esta é a expressão correta. Ganha-se em
obviedade e perde-se em elegância.
Já mencionei aqui,
noutra ocasião, a tal lei da termodinâmica, segundo
a qual os sistemas tendem à desordem. Sendo a língua
um sistema, está sujeita a desorganizar-se, como o atestam
os exemplos citados, tanto mais hoje em dia, quando a TV induz milhões
de pessoas a falar errado. Essa mesma TV que poderia se tornar um
instrumento decisivo na luta contra a entropia. Ou será que
escrever certo é elitismo?
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