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Matéria publicada
no jornal Folha de São Paulo, de 21/06/10
O milagre
de Santa Isabel
GILBERTO DIMENSTEIN
Não existe segredo:
gente talentosa, com garra, frequentando as melhores escolas, só
pode se destacar
DURANTE um encontro com
professores na sexta-feira passada, no Centro de Convenções
da Bolsa de Valores, no Rio de Janeiro, Marco Antônio Lopes,
um rapaz de apenas 18 anos de idade, começou sua apresentação
tentando desfazer a estranheza da plateia: "Vocês devem
estar achando que eu sou um pouco jovem para ser professor"."
Em poucos minutos, ao
relatar sua história, ele fez a desconfiança dos ouvintes
converter-se em admiração. Marco Antônio está
por trás de uma proeza realizada em Santa Isabel, uma pequena
cidade da região metropolitana de São Paulo, onde
vivem 50 mil habitantes. Lá, estudantes estão conquistando
medalhas em olimpíadas brasileiras de matemática,
de informática, de astronomia e de física.
Só para oferecer
ao leitor uma simples medida de comparação, cito cidades
como a rica São José dos Campos, que, com 650 mil
habitantes e centros de excelência em tecnologia, tem 30 finalistas
na Olimpíada Brasileira de Informática, e Campinas,
sede de empresas de alta tecnologia e um dos principais centros
universitários brasileiros, que, com 1 milhão de habitantes,
não tem sequer um finalista nessa competição.
Santa Isabel, por sua vez, sai à frente, com 25 finalistas.
O milagre educacional
de Santa Isabel é um dos símbolos de que dispomos
para descortinar um dos maiores desperdícios brasileiros
-o desperdício de talentos.
Filho de uma família de baixo poder aquisitivo, Marco Antônio
recebeu o apoio do Ismart (Instituto Social para Motivar, Apoiar
e Reconhecer Talentos), um programa criado para revelar talentos,
bancado por empresários. Ele entrou no ITA e, neste ano,
foi aceito pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology).
Como sentia a necessidade
de retribuir o apoio obtido, criou em Santa Isabel, sua cidade,
um projeto para formar jovens, tornando-os aptos a disputar as olimpíadas
escolares. Já tem 150 alunos e o apoio entusiástico
de professores do ITA, que se dispuseram a abraçar essa causa.
Desde 2005, Marco Antônio já vinha arrebanhando vários
desses prêmios, dentro e fora do Brasil.
Alunos de seu programa
são descobertos e apoiados pelo Ismart para entrar nas melhores
faculdades -alguns deles, por sua vez, transformam-se em monitores.
É um monumental círculo virtuoso.
A imensa maioria dos
beneficiados do Ismart, embora de origem pobre, entra nas melhores
faculdades brasileiras. Esses jovens recebem apoio para ingressar
em boas escolas privadas, como os colégios Santo Américo,
Bandeirantes ou Santa Cruz, em São Paulo, e o Colégio
de São Bento ou o Santo Inácio, no Rio.
"São alunos
com altas habilidades de aprendizagem, uma enorme força de
vontade e, em geral, um extraordinário apoio familiar",
explica Mauro Aguiar, diretor-presidente do Colégio Bandeirantes.
"Por isso, professores disputam a oportunidade de dar aulas
para eles."
Não existe aqui nenhum segredo: gente talentosa, com garra,
frequentando as melhores escolas, só pode mesmo se destacar.
Rapidamente, vão desaparecendo os buracos deixados no passado
pela educação pública deficiente.
Paradoxalmente, mede-se
por esse sucesso o tamanho de um fracasso. O Ismart atendeu, no
ano passado, 526 pessoas. Um de seus grandes méritos é
mostrar o que perdemos todos os dias. Estima-se que exista, no Brasil,
algo em torno de 1,5 milhão a 2,5 milhões de brasileiros
com altas habilidades em alguma área do conhecimento -da
música à engenharia, passando pelo esporte, área
em que têm surgido excelentes jogadores de futebol.
A falta de apoio começa
na escola e se propaga na família. Não se consegue,
nem na rede pública nem, muitas vezes, na particular, cuidar
adequadamente dos alunos medianos, muito menos dos alunos diferenciados.
Imagine se conseguíssemos
descobrir e estimular cientistas na mesma proporção
em que têm sido descobertos e estimulados jogadores de futebol,
para os quais a nação parece ter um olhar mais atento,
capaz de revelar e nutrir talentos.
Teríamos o milagre
de Santa Isabel -mais garotos revelando inteligência em olimpíadas
escolares e, como Marco Antônio, servindo de exemplo de sucesso.
PS- Coloquei na internet
(www.dimenstein.com.br) o programa do Ismart e depoimentos de alguns
de seus beneficiários.
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