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Matéria publicada
no jornal Folha de São Paulo, de 21/06/10
O tempo
DANUZA LEÃO
Quando você não
tem nada para fazer, ele não passa, e se fica esperando que
chegue a noite quase em desespero
QUAL A COISA MAIS PRECIOSA do mundo, mais
que o ouro, que todos os diamantes, todas as moedas fortes, toda
a riqueza e poder da terra? Acertou quem respondeu o tempo.
Coisa misteriosa este
tal de tempo. Quando você não tem absolutamente nada
para fazer, ele não passa, e se fica esperando que chegue
a noite, e o dia seguinte, quase em desespero. Mas quando a vida
está movimentada e boa, ele voa, e quando você se dá
conta, a semana acabou sem saber como, e o mês também,
e foram-se os anos. Não há meio termo: ou se morre
de tédio ou de exaustão. O que é melhor? Difícil
escolha.
Quando não se
faz nada, sobra tempo para pensar em coisas que nos fazem ou fizeram
sofrer, lembrar do passado com arrependimento, saudades, ou, o pior
de tudo, com a sensação de não ter vivido -pensamentos,
aliás, absolutamente inúteis. Quando o tempo sobra,
qualquer palavra que se ouve é analisada, o contexto em que
ela foi dita pode ter proporções perigosas, e até
o tom de voz tem -ou pode ter- um grave significado.
Se seu porteiro diz alguma
coisa que não te soa bem, é uma punhalada no coração,
e quem tem o dia pela frente para ficar remoendo o que ouviu vai
viver um drama, pois nada para fazer de uma bobagem uma grande tragédia
como uma boa tarde ociosa. Mas pergunte a alguém, com dois
empregos, quanto tempo dura o sofrimento. Exatamente o tempo entre
a casa e o trabalho; na fila para o ônibus, o problema já
acabou.
Ah, o tempo; o tempo
que não se tem para ouvir a amiga, para escutar o problema
do filho, o tempo que ninguém tem para escutar os nossos.
E como não se pode viver sem ter com quem falar existem,
felizmente, nossos queridos analistas, que dedicam 50 minutos inteirinhos
só a nós, ouvindo todas as bobagens e nos compreendendo,
sem que o telefone toque ou que a empregada bata na porta pedindo
dinheiro para comprar carne.
Coisa mais curiosa; quando
você está esperando ansiosamente por alguém
que marcou de chegar às nove -e você às oito
já está pronta, claro-, é capaz de passar uma
hora inteira olhando para o relógio, e só para isso
foi inventado o ponteiro dos segundos; para se ter certeza de que
o tempo passa. Por outro lado, se estiver com o homem que mais ama
fazendo a mais maravilhosa viagem, quando se der conta ela já
acabou, sem deixar uma só prova de que tudo existiu, a não
ser na memória e em algumas vagas fotos. Só que um
dia, quando você estiver amando outra pessoa, já terá
esquecido -como tantos se esqueceram de você. O tempo, remédio
para tantas coisas, mas que demora tanto para fazer efeito.
O tempo não tem
forma, cheiro, sabor; não pode ser comprado em farmácias,
ser dado nem emprestado, não é vegetal, animal nem
mineral, não pode ser guardado no cofre, não pode
ser esbanjado, nem é possível economizá-lo
para o futuro. Ele não existe, e ao mesmo tempo só
ele existe.
E o homem, que já
conseguiu tantas proezas, como voar, chegar à lua, ser mais
veloz que o som, fazer chover, transformar a água do mar
em água doce, irrigar os desertos, só não conseguiu
ainda dominar essa coisa tão preciosa e abstrata que é
o tempo.
PS - Estou saindo de
férias, estarei de volta dia 25 de julho, até lá.
danuza.leao@uol.com.br
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