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Revista Educação» Ano 14
»Edição 157
Um segredo...
... que nunca revelei
Rubem Alves
Tenho uma ternura especial pelas coisas fracas, que não sabem
ou não conseguem se defender. E não só a fraqueza
física: são as humilhações silenciosas
que dilaceram a alma dos fracos.
Costumava caminhar num jardim
que terminava em frente a uma escola. Observava meninos e meninas
que iam juntos, bonitos, esbanjando alegria. Mas havia uma menina
muito gorda que caminhava sempre só. Nunca vi um gesto dos
alegres e bonitos convidando-a a juntar-se ao grupo. E ela nem tentava.
Havia outra, magra, alta, sem seios, rosto coberto de espinhas,
encurvada como se quisesse esconder-se dentro de si.
Ficava pensando que havia nelas
uma mocinha que desejava ser amada. O que pensavam quando iam para
a cama? Certamente choravam. Mas essas percepções
não passavam pela cabeça dos outros.
No Ginásio era assim
também. Os bonitos se juntavam. Os feios eram deixados de
lado. Um incidente ocorrido há 60 anos continua vívido
na minha cabeça. Era uma moça feia, desengonçada,
magra. Jamais a vi conversando com um menino ou sorrindo. Entrava
na sala e ia para sua carteira, encostada na parede. Um dia, chegou
atrasada, a turma já assentada. Não havia jeito de
se esconder, desfilou diante de todos. E foi então que um
colega deu um daqueles assobios... A classe estourou na gargalhada.
Ela continuou a caminhar, as lágrimas escorrendo.
Tive vontade de berrar, um grito
de ódio, mas nada fiz. Porque também era fraco e feio
e ridículo. Ela é a única colega cujo nome
não me esqueci. Suas iniciais eram I.K. Eu era novo no Rio
de Janeiro, vindo do interior de Minas, onde ir à escola
de sapato era um luxo. Fui ao colégio no primeiro dia de
aula com sapato sem meia. Todos riram. No dia seguinte, fui de meia.
Não adiantou. Riram-se do meu sotaque caipira. Tornei-me
vítima dos valentões. Apanhei muito em silêncio
porque não sabia me defender. Não tinha a quem apelar.
Acontecia na rua, fora do olhar dos professores. Meus pais não
saberiam o que fazer. Minha mãe me daria o único conselho
que sabia dar: "Quando um não quer dois não brigam".
É verdade, quando um não quer, um bate e o outro apanha.
Uma pessoa querida me disse
que tenho raiva das mulheres. Fico a pensar se essa raiva não
tem raízes na minha mãe, que só me ensinava
a não reagir, que desejava que eu fosse fraco e não
enfrentasse a luta. A pancada que mais doeu foi dada por um colega
que se dizia filho de governador, rico, arrogante, ouro nos dentes.
Sem motivo, na hora do recreio veio até mim e disse: "Você
é ridículo..."
Essas experiências não
podem ser esquecidas. A gente faz força para não as
revelar, por vergonha. Durante toda a vida, foram um segredo só
meu. Nunca as contei nem para os amigos mais íntimos. É
a primeira vez que as revelo.
Fui me enchendo de vergonha
e de humilhação. Daí nasce o ódio. À
medida que crescia e me tornava adulto, esses sentimentos criaram
em mim um lado que não suporta a injustiça dos fortes
contra os fracos. O que me leva, por vezes, a fazer coisas imprudentes
a favor dos fracos, mesmo com risco de ser agredido.
Mas há algo que me magoa.
É como se a minha pele de ternura, de voz baixa, de poesia,
que deseja proteger as coisas fracas, morasse no mesmo quarto onde
mora esse jeito bravo. E, de vez em quando, sem me dar conta, fico
irônico, impaciente, a voz se encrespa. Imagino que isso aconteça
quando, lá no meu inconsciente, onde mora o menino ridículo
que apanhava, o sentimento de humilhação aparece.
Magoei muitas pessoas com esse meu jeito, algumas de forma irremediável.
Por isso estou triste. Mais triste porque sei que hoje, no mundo
todo, os fracos são humilhados e apanham...
Rubem Alves Educador e escritor
rubem_alves@uol.com.br
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