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Retrato.

Julia Arantes*

Sentei-me no sofá de couro marrom bem antigo, com as mãos sobre os joelhos ralados e de pernas juntas. Usava uma bermuda velha de brim grosso, presa por um cinto preto bem fininho de couro e a camiseta branca impecavelmente limpa por dentro da bermuda. Os sapatos, também pretos, foram recentemente engraxados e o cabelo estava partido ao meio, com uma aparência de molhado, por causa do gel. Minha mãe tinha todo o cuidado de me arrumar para visitar a casa da minha avó, a mãe do meu pai. Horas antes, esfregou a bucha vegetal por todo o meu corpo, durante o banho, deixando minha pele avermelhada. Minha mãe me empurrou para o sofá, obrigando que eu me sentasse, abaixou-se e falou no pé do meu ouvido, com um tom ameaçador: "Fica sentado aí. Não sai pra rua pra brincar com os moleques". Anos depois, descobri que minha avó falava coisas horríveis sobre minha mãe para o seu pai: como ela era desleixada, como não cuidava da família, que era uma qualquer que se aproveitou da boa situação do meu pai e que nunca o amou de verdade. Vi a barra de seu vestido de chita desaparecer pelo vão da porta da cozinha e ouvi sua voz baixa, com um pouco de medo, perguntando se minha avó precisava de ajuda. Como odiava minha mãe, por me obrigar a me manter sentado ali, quando poderia fazer tanta coisa do lado de fora! E minha avó nem televisão tinha, falava que era perda de tempo, que não levava nada a ninguém, que novela era coisa de gente fofoqueira, sem vida própria.Toda a casa tinha um cheiro de gente velha. Nunca consegui entender de onde vinha aquele cheiro, se era de coisas antigas guardadas. Misturado a isso, o constante aroma doce do café com rapadura. Encostei as costas no sofá e procurei por detalhes que nunca havia percebido naquela sala. O tapete comido pelas traças, as imagens dos santos na estante, enciclopédias, livros sobre costura, e um único quadro na parede, no alto da porta. Era o retrato de um homem e uma mulher. Depois descobri que era tradição os recém-casados serem fotografados daquela maneira. Era a minha avó e meu avô, mais novos. Ele era o mesmo, com a diferença das rugas e dos fios brancos. Na imagem, seu cabelo era acaju, corte impecável, barba feita. Usava um terno azul marinho, com uma gravata fina da mesma cor, e, por baixo, a camisa branca. Sorria levemente, sem mostrar os dentes. As sobrancelhas eram grossas, parcialmente escondidas pelos óculos grandes. Minha avó também não havia mudado tanto. O cabelo branco de hoje dava lugar a fios negros, firmemente presos em um coque na nuca. O olhar severo era o mesmo, mas naquela época ela ainda não usava óculos. A boca, um pouco encrespada, não mostrava sinais de um sorriso. O vestido preto tampava parcialmente o seu pescoço. A primeira vez em que reparei naquele retrato, não consegui conceber a idéia de que meus avós foram jovens um dia. Sabia que eles não haviam nascido velhos, como eram hoje, mas não podia aceitar a idéia de que eles haviam tido a minha idade. Para mim, eles sempre foram preparados para serem velhos, pais e avós. Nasceram com esse dom, nasceram com a cabeça velha e, durante o tempo que se passou, apenas cresceram, deixaram que a pele enrugasse, colocaram óculos, quando a vista falhou, e conservaram a mudança dos fios, de coloridos para o branco. Claro que já havia visto fotografias de quando eles eram crianças, aquelas que não chegavam a ser preto e branco, mas amareladas. Comprovei, com os meus olhos e com a memória fotográfica deles, que, sim, de fato eles viveram como eu vivi ; até tiveram joelhos rasgados de tombos de bicicleta, como o meu. Eu sabia que não havia nascido com a cabeça velha como a deles. Será que nunca teria filhos, nunca seria avô, nunca seria velho, nunca teria o cheiro fedido daquela casa? Será que seria criança para sempre, que seria sempre o xingado e nunca o que xingava os pequenos? Não sabia se aquilo me reconfortava ou se me dava medo. Era seguro ser sempre uma criança, mas me parecia também tão bom ser um velho!

Julia Arantes, 19, é estudante de letras e autora de vários contos.
http://allalright.wordpress.com/