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Matéria publicada no jornal O Tempo, 16/12/2010 - Belo Horizonte MG

A tragédia educacional

JOSÉ LUIZ ALMEIDA COSTA 

A cada ato que desenrola a tragicomédia vivenciada pelo palhaço Tiririca, ficam expostos os resultados dos equívocos educacionais na alfabetização dos brasileiros. Declarado analfabeto funcional por meio de laudo obtido pela Promotoria Pública de São Paulo, o deputado federal eleito tem a companhia de outros milhões de brasileiros que também não compreendem o que leem. Enquanto executa sua dança engraçadinha, Tiririca faz o país chorar da tragédia oculta do analfabetismo funcional.

Tiririca é o personagem ideal para interpretar como os brasileiros alfabetizados ineficientemente têm que requebrar para sobreviver social e profissionalmente. Ao contrário da maioria das pessoas que escondem suas deficiências de leitura e compreensão da escrita, ele fez delas seu mote eleitoral. A maior parte dos analfabetos funcionais não sabe a razão de suas deficiências e sente-se frustrada consigo mesma. Esses analfabetos criam embustes de si próprios e vivem da repetição de  atitudes que deram certo no passado. Ler e não compreender é mais do que uma deficiência individual. É uma calamidade educacional nacional que afeta dezenas de milhões. Como analfabeto funcional, Tiririca tem a companhia de uma parcela considerável da população brasileira.

Para ser analfabeto funcional, é necessário que a pessoa tenha recebido aprendizagem de leitura e escrita e não ter incorporado as habilidades de interpretação e contextualização. Para sair bonito nas estatísticas de alfabetização, o Brasil inventou o Mobral, o jeitinho brasileiro de alfabetizar desenhando letras. Até hoje, enquanto a taxa nacional de analfabetismo diminui, a do analfabetismo funcional aumenta. No mapa-múndi, o Brasil não está bonito na foto do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que compara as habilidades de contextualização entre alunos de vários países. Em função da decoreba que foi, durante anos, o principal recurso didático do  ensino, podem-se encontrar analfabetos funcionais até entre os diplomados dos cursos superiores. Muitos ocupam posições de relevância nas empresas e na vida pública.

Na próxima legislatura, o Congresso Nacional terá Tiririca como o primeiro deputado federal oficialmente atestado como analfabeto funcional. A lei não distingue diferenças entre os alfabetizados. O voto dele terá o mesmo valor que os dos outros congressistas. Mas Tiririca terá que ler, compreender e elaborar projetos de lei. Para superar suas deficiências, o jogo de cintura de Tiririca terá que ser maior do que a sua requebradinha. Paulo Freire ensinou que "a leitura do mundo precede a leitura da palavra". Se os últimos presidentes da República, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, não souberam ler e interpretar a importância da qualidade na educação para o país, não temos o direito de cobrar isso de Tiririca. É como ele diz: "Se eu não sei, os outros também não!".