Folha Dirigida, 06/11/2008 - Rio de Janeiro RJ -Bruno Vaz

Acesso negado à chave do conhecimento

Pouca gente sabe mas, no último dia 29 de outubro, foi comemorado o "Dia Nacional do Livro". Escolhida por representar a fundação da Biblioteca Nacional, a data, infelizmente, não costuma ser lembrada pela grande maioria dos brasileiros, provavelmente pelo fato de não significar um feriado prolongado ou um dia de descanso no trabalho.

Esquecer a importância da leitura para a construção da cidadania e de uma sociedade mais justa e democrática, porém, é um mal que pode levar gerações para ser reparado. Em artigo escrito recentemente, o ex-representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil, Jorge Werthein, ressalta por que o incentivo à leitura é matéria essencial quando se fala em desenvolvimento sociocultural. "A pessoa que não sabe ler, nem escrever, se sente profundamente limitada e discriminada. Não consegue entender o jornal, não sabe pegar ônibus, nem possui condições para obter um emprego. Sua auto-estima é baixa", relata o atual diretor-executivo da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla).

Ainda segundo o dirigente, disposição não falta para que o brasileiro consiga ler mais e melhor. "O Instituto Nacional de Analfabetismo Funcional (Inaf) informa que 67% dos brasileiros têm interesse na leitura. Mas, dos 5.564 municípios existentes no país, em cerca de mil não existem bibliotecas. E, em 89% deles, não existem livrarias", destaca Werthein, como numa forma de puxar o barbante do novelo e começar a descobrir as causas da falta de leitura no cardápio do brasileiro.

Em entrevista publicada na última página da edição, o secretário-executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), José Castilho Marques Neto, defende os esforços do governo neste sentido. "Este é um caminho que, de acordo com o conjunto de ações que estamos implantando com outros ministérios, nós esperamos reverter." As críticas aos esforços do governo, porém, parecem ser a tônica das opiniões de representantes da comunidade acadêmico-cultural. Presidente do Conselho Federal de Biblioteconomia, Nêmora Rodrigues lamenta a situação das bibliotecas. "Elas passam por uma série de dificuldades, falta acervo atualizado e equipamentos para se tornarem mais atrativas. Hoje, com a multimídia e todas as oportunidades de interação, o computador poderia ser um atrativo para a pessoa freqüentá-la e, a partir daí, ler também o livro em papel", afirma.

Para o presidente do Instituto Pró-livro, responsável pela pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", Jorge Yunes, a falta de leitura está vinculada aos níveis de escolaridade do país. "O incentivo à leitura nas escolas é muito importante, o governo tem que trabalhar para que esse índice seja igual no Brasil inteiro. Se a escolaridade aumentar, com certeza a leitura aumenta também", aponta. Presidente de honra da Academia Brasileira de Filologia, Leodegário de Azevedo Filho vai além e cobra qualidade. "A leitura é muito importante para a construção de uma consciência cidadã. Mas, antes de tudo, precisamos questionar que tipo de leitura é essa. É necessário estabelecer uma relação entre o proveito da leitura e o conceito de cidadania. Tanto a leitura quanto uma interpretação crítica dos textos lidos levam o leitor a conhecer os direitos humanos e, de uma maneira geral, seus direitos e deveres perante a sociedade", comenta o professor de Língua Portuguesa.

Ainda segundo o educador, a leitura é indispensável para a construção do cidadão, mas enfrenta sérios concorrentes. "O Brasil, hoje, é um país ilegível, que não lê. E, para que isso esteja acontecendo, vários fatores contribuem. A televisão, por exemplo, é muito útil, importante para o entretenimento das pessoas, mas rouba muito tempo em nossos lares. Tempo esse que poderia ser dedicado à leitura." Leodegário finaliza o seu raciocínio lembrando da importância da educação para a resolução do problema. "Num país que tem 14 milhões de analfabetos entre 7 e 14 anos, como podemos ter um público leitor? É por isso que esta questão passa pela educação, de uma forma geral. A leitura é a verticalização, a formação crítica do conhecimento. Mas o fator principal para que tenhamos uma população cidadã é a educação", estabelece o educador.

Decálogo
a ser seguido pelos gestores para a solução dos problemas de infra-estrutura das Escolas Públicas Estaduais


1
Se não houver merendeira na escola,
não será fornecida a merenda;

2
Se não houver pessoa responsável pela Biblioteca, ela permanecerá fechada;

3
Se não houver escriturários e secretário,
de acordo com o módulo, não haverá entrega de documentos na DE;

4
Se não houver verba para compra
de material e manutenção da sala de informática, o local não será utilizado;

5
Se não houver recursos para reparos e vazamentos no prédio escolar,
não haverá consertos;

6

Se não houver recursos para pintura do prédio, o prédio não será pintado;

7

Se não houver verba para a contratação de contador para as escolas, não haverá prestação de contas à FDE;

8
Se não houver verba suficiente para a contratação de funcionários pela CLT,
o dinheiro será devolvido;

9
Se a mão-de-obra provisória
não for qualificada, será recusada;

10
Se as festas não tiverem o objetivo de integrar a escola à comunidade, não serão realizadas

A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos. Todas as omissões do Estado, com relação aos itens acima, deverão ser objetos de ofícios da direção às Diretorias Regionais de Ensino, a fim de isentarem o diretor de eventuais responsabilidades administrativas.
Toda e qualquer ameaça de punição aos diretores associados da Udemo, por tomarem aquelas atitudes, será objeto de defesa jurídica por parte do Sindicato, seguida de denúncia ao Ministério Público e propositura de Ações Civis Públicas contra o Estado, pelo não cumprimento das suas obrigações para com as unidades escolares e pelos prejuízos causados à comunidade escolar.