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Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, de 09/11/08 Como Brasília perdeu uma prostituta Como era inteligente, a menina prosperava cada vez mais
rápido na escola; assim, deixou a prostituição e
virou dentista A EDUCADORA Dagmar Garroux preparou uma de suas alunas para ser prostituta. Mas não qualquer prostituta -seria treinada para circular pelos bastidores de Brasília. Além de etiqueta, aprenderia a falar bem português e se viraria no inglês ou espanhol. Com aulas de artes, história e atualidades, ela conseguiria manter uma conversa em recepções. "O treino funcionou", orgulha-se Dagmar. Funcionou tão bem que Brasília perdeu uma prostituta.
A menina, estimulada com a chance de ser prostituta em
Brasília, morava na favela do Parque Santo Antônio, localizada
no chamado "triângulo da morte", na zona sul da cidade
de São Paulo. No "triângulo" existe o cemitério
São Luiz, que, conta-se, é o lugar onde estariam enterrados
mais adolescentes por metro quadrado no mundo. Dagmar criou, ali, um centro educacional batizado de Casa
do Zezinho -o nome é inspirado na poesia "E agora, José?",
de Carlos Drummond de Andrade. Uma das freqüentadoras da casa era
a menina, que começou a vender o corpo, na fronteira da adolescência,
agenciada por um rapaz mais velho da escola pública em que estudava.
Dividiam pela metade o valor de cada programa (R$ 10). Você nunca pensou em se vender para ganhar dinheiro?",
perguntou, agressiva. Ela era conhecida pela violência, metia-se
em brigas. Quase sempre andava com uma faca. Dagmar suspeitou de que corria o risco de perder a aluna,
desfeito o já frágil laço afetivo. Decidiu entrar
no jogo. Disse que nunca quis vender o corpo. Mas, se quisesse, não
iria aceitar mixaria. "Eu iria cobrar no mínimo R$ 1.000.
Isso no começo, depois aumentaria o preço." A aluna arregalou os olhos e ouviu a improvável proposta: "Por que você não se prepara para ser puta em Brasília? Você ganha dinheiro e se aposenta". Com aquele corpo e a bagagem intelectual, acrescentou, certamente iria surgir um marido rico.
No dia seguinte, a garota voltou, animada com a proposta.
"Topo", disse. Dagmar ponderou que ela deveria, então,
se preparar. Para começo de conversa, deveria se cuidar para que
aumentasse a disputa dos clientes. Precisaria, assim, parar imediatamente de estragar seu
corpo com os homens da favela. "Você quer chegar a Brasília
com a mercadoria velha?" Dagmar convenceu-a de que, além do
corpo atraente, precisaria mostrar cultura e saber falar. Um tanto a contragosto,
mas de olho nas recompensas futuras, aceitou as aulas. Com as aulas, vieram reflexões sobre autonomia e responsabilidade; a auto-estima era trabalhada em projetos de arte e comunicação. Certo dia, ela fez um comentário sobre os dentes de Dagmar. "Parece que você tem uma boca de cavalo." E brincou: "Se eu fosse dentista, eu consertaria a sua boca".
O apoio explicou por que, embora sem intenção, a menina apresentasse melhor desempenho escolar. A trajetória teve momentos de crise: como já não faturava com a prostituição, a garota passou a vender drogas. Dagmar voltou a argumentar que, se fosse mesmo vender drogas, deveria se tornar chefe e, aí, precisaria continuar os estudos para entender contabilidade. O inglês seria útil para transações internacionais.
Como era inteligente, a menina prosperava cada vez mais
rapidamente na escola. À medida que ficava mais velha, prestava
mais atenção no que acontecia em sua comunidade com quem
se envolvia com as drogas e a prostituição -bem ao seu lado
estava o pedagógico cemitério São Luiz. Ela chegou a concluir o ensino médio e suspeitou que talvez pudesse prosseguir. Por motivos óbvios, não posso revelar o nome da aluna: "Ainda sinto muita vergonha", justifica. Fez um cursinho pré-vestibular gratuito e entrou na USP. Formou-se em odontologia -e agora vive consertando bocas.
PS: A ex-futura-prostituta de Brasília é
um dos casos que passaram pela Casa do Zezinho, uma experiência
relatada agora pelo educador Celso Antunes no livro "A Pedagogia
do Cuidado", a ser lançado neste mês. Ele detalha o que existe de teorias pedagógicas
por trás dos exemplos. Se os gestores municipais agora eleitos quiserem fazer
cidades melhores, terão de aprender as magias que podem ser feitas
quando existirem bons educadores, mesmo num "triângulo da morte". É mais uma ilustração do que sempre digo: educar é ensinar o encanto da possibilidade. Um dos seus projetos é transformar aquele simbólico cemitério São Luiz, com o recorde de covas de adolescentes, numa galeria de arte, com os muros externos pintados -as obras, claro, serão feitas por adolescentes. Por esse tipo de experiência, Dagmar vai dar aula, na próxima semana, num curso de gestão da Fundação Vanzolini, da Poli. gdimen@uol.com.br |
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