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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 06/11/08 Os limites da atenção Suzana Herculano-Houzel Não estava no programa, quando resolvi ser neurocientista,
me tornar escritora também (muito menos colunista da Folha) -e
menos ainda virar apresentadora de uma série (sobre neurociência,
é claro) na televisão. Mas cá estou eu, adorando
as atribuições da "neurocientista de plantão"
-e, de quebra, aprendendo coisas inusitadas sobre a neurociência
relativa à vida comum. Por exemplo: quantas pessoas são necessárias
para gravar dois minutos de vídeo? "Umas três"
era meu chute ingênuo, com base nas equipes que vêm ocasionalmente
ao laboratório gravar entrevistas. Para meu espanto, durante uma
pausa em frente às câmeras no estúdio, notei que tinha,
de olhos colados em mim, uma equipe de nada menos que... 30 pessoas. Por
que tanta gente para cuidar de apenas uma pessoa e um cérebro cenográfico
no vídeo? Meu lado neurocientista de plantão aproveitou a
espera sob os refletores (deliciosamente quentinhos, no estúdio
gelado) para pensar no assunto: isso só pode ser coisa da nossa
capacidade limitada de atenção. Prestar atenção significa alocar seletivamente
nossos recursos cognitivos sobre um único foco, cujo processamento
fica mais rápido e preciso, em detrimento dos demais, que se tornam
menos detectáveis ou salientes. Na prática, isso funciona
como um filtro que faz sobressair tudo o que diz respeito a uma informação
-mas às custas de todas as outras, que "somem" no fundo. A boa notícia é que estamos sempre prestando
atenção em alguma coisa: até o cérebro distraído
está, na verdade, atento a processos mentais internos (a agenda
do dia, o encontro à noite) ou ocupado acompanhando o "distraidor"
da vez (como a mosquinha ou a moça bonita que passa). A má notícia é que só conseguimos
fazer, conscientemente, uma coisa de cada vez -como cuidar da luz, do
som, das sombras erradas, dos cabos, da câmera, dos fios de cabelo
rebeldes, da maquiagem, das falas, da seqüência, cada uma função
do córtex de uma pessoa diferente para que tudo saia certo ao mesmo
tempo. Ou cuidar do conjunto, função do córtex do
diretor -quem, para acertar no todo, não pode prestar atenção
às partes. Considerando que somos apenas eu e um cérebro em
cena, até que são "só" trinta pessoas para
a gravação. Imagine quantos cérebros atentos a uma coisa de
cada vez não devem ser necessários para gravar uma cena
de novela ou cinema, com dezenas de atores e figurantes, cenários
complicados e coisas se movendo... SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, é professora da UFRJ e autora do livro "Fique de Bem com o Seu Cérebro" (ed. Sextante) e do site "O Cérebro Nosso de Cada Dia" (www.cerebronosso.bio.br) suzanahh@folhasp.com.br |
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