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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo, de 06/11/08 Educar para a diversidade ROSELY SAYÃO Discursos politicamente corretos: a escola tem se especializado
nessa questão. Vamos tratar da expressão "educação
para a cidadania" para mostrar o quanto ela é usada apenas
como ferramenta de marketing, e não como experiência educativa
de fato. Afinal, o que cada escola que usa tal conceito em seu projeto
político-pedagógico pratica nesse sentido? Nessa altura do ano, em que a maioria dos pais toma decisões
quanto à matrícula dos filhos, um número significativo
deles está à beira do desespero. Seus filhos, pelos mais
diversos motivos, são considerados portadores de necessidades especiais,
e a maioria das escolas não quer recebê-los. As justificativas são variadas: ora a escola não
está preparada para receber tais alunos, ora suas dependências
não são apropriadas, ora a idade do aluno é muito
discrepante dos colegas da classe que teria de freqüentar etc. O
fato é: a matrícula deles não está garantida
nas escolas particulares. É interessante lembrar que a educação
escolar não tem como objetivo apenas o desenvolvimento de habilidades
pelo uso do conhecimento, o contato com a cultura e a arte. É principalmente
uma prática que leva à integração social.
É na escola que o aluno aprende a conviver em sociedade: ocupa,
pela primeira vez, um papel social fora do núcleo familiar, se
integra a um grupo de pessoas diferentes que compartilham o mesmo objetivo,
aprende a ser solidário, colaborativo e respeitoso nas relações.
E tem mais: toda criança pode aprender. Pelo jeito, vida em sociedade é um direito de quase
todos, e não de todos. Estão aptos a freqüentar uma
escola particular apenas os alunos que apresentam características
próximas às das crianças que já freqüentam
ou tradicionalmente freqüentaram a escola regular. Isso é
"educar para a cidadania"? A prática escolar tem sido a de adaptar os alunos
ao seu funcionamento e ensino. Tal equação precisa ser invertida
para que a escola cumpra seu papel social. Rendimento escolar abaixo do
potencial do aluno, problemas na convivência com as normas da escola
e com os pares, dificuldade para superar a angústia que aprender
suscita não devem ser tratados como problemas pessoais de determinados
alunos. São problemas da escola, sobre os quais ela precisa refletir
para reconsiderar sua prática usual. Quais as nossas responsabilidades diante dessa questão? Temos ou não compromisso com as gerações
mais novas e com o futuro, com a convivência com a diversidade e
a busca de relações sociais mais democráticas? Como
muitas escolas particulares, temos esse discurso, mas nossa prática
se assemelha à das escolas que não aceitam certas crianças. Por um futuro melhor para nossos filhos, precisamos todos nos envolver diretamente com essa questão. A não ser que estejamos satisfeitos com o fato de que nossos filhos vivem em uma sociedade que segrega e exclui. Estamos? |
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