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Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, de 30/10/08 Dramas da liberdade Dulce Critelli [...] INDIVIDUALISTAS, SÓ RECONHECEMOS NOSSA LIBERDADE QUANDO IMPOMOS NOSSA VONTADE; DAÍ TANTOS HITLERS, OTELOS E LINDEMBERGS Às vezes, lembro-me de uma velha senhora que me
procurou perplexa e inconformada com sua atual condição.
Problemas na retina não lhe permitiam mais ler, e ler era tudo
de que mais gostava. Os dentes falsos, que só mastigavam o que
não fosse muito sólido, eram meros enfeites que sempre se
soltavam na boca. As pernas estavam fracas, os pulmões, cansados,
a memória, falhando. Embora seu corpo a mantivesse viva, também a impedia
de viver. Como equacionar a falta de liberdade a que ele a condenava com
o sentimento de liberdade do seu espírito, que queria sair pelo
mundo, fazer coisas, transformar-se? O drama da velha senhora é o mesmo que atravessa
a vida de todos nós: o drama da liberdade. Poucas vezes tão
nítido. E nem sempre vivido na relação conosco mesmos.
Na maioria dos casos, vivido na relação com os outros. Esse drama está aí, nos conflitos das separações,
nas crises dos adolescentes, nas guerras, nas angústias de quando
queremos mudar de vida. E, inevitavelmente, jogando-nos na encruzilhada
do "quero e não posso", ou "quero e não quero"
(ou "não sei o que quero"). Não fosse a condição de que viver
como homens é viver na companhia de outros homens, a dificuldade
de realizar o que se quer não existiria. Mas quem se satisfaz só
com a liberdade de pensar, de sentir e de querer quando está a
sós consigo mesmo? Ninguém. A "liberdade interior",
solitária, é inútil. A liberdade é um negócio entre homens. Ela
implica no movimento de superarmos uma situação que nos
limita e, em seguida, estabelecermos as condições para uma
vida em acordo com nossos propósitos. Meu sobrinho, aos quatro anos, disse ao meu cunhado: "Pai,
quando eu for grande e você quebrar as duas pernas e a mamãe
também, posso pegar o carro e levar minha irmã para a escola?"
É a maior e mais inocente expressão da consciência
que alguém tem de que seu poder de agir segundo a própria
vontade está fora de suas mãos. Ninguém nos dá a liberdade. Se fosse assim, jamais seríamos livres, pois dependeríamos
da permissão do outro. Nunca seremos livres para agir. Ao contrário,
agimos para sermos livres. Ser livre dá trabalho. A liberdade exige a habilidade de fazer acordos com os
outros (e conosco) que nos permitam realizar nossas vontades. Mas, paradoxalmente, esses acordos nunca asseguram que
se realizará a vontade do eu, mas a vontade do nós. A experiência da liberdade, hoje, passa pela recuperação
de nossa capacidade de fazer acordos e pela descoberta de que a melhor
realidade para a existência pessoal é aquela que compartilhamos
com outros. Criados sob o individualismo, acabamos por só reconhecer
nossa liberdade quando impomos nossa vontade. Daí tanta decepção
e impotência. E, de um ponto de vista mais amplo, daí as
ditaduras, os totalitarismos. Daí tantos Hitlers, Stalins, Maos,
Otelos e Lindembergs. A soberania da vontade do eu é, também, fonte de uma monstruosidade: homens dominadores, fortes, mas solitários. Só a solidão pode ser mais opressiva do que a falta de liberdade.
DULCE CRITELLI , terapeuta existencial e professora de filosofia da PUC-SP, é autora de "Educação e Dominação Cultural" e "Analítica de Sentido" e coordenadora do Existentia -Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana |
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