Revista Carta na Escola, Edição 23

Professor da família

Em Taboão da Serra, visita de educadores à casa dos alunos ajuda a diminuir o número de repetência e a evasão na rede municipal

Por Livia Perozim

Foi batendo à porta da casa dos seus alunos que a professora Josefina Reis pôde entender determinadas atitudes, dificuldades de relacionamento e aprendizado que eles apresentavam. Essas visitas passaram a ser uma importante ferramenta de trabalho. Ao entrar no ambiente doméstico em que vivem os 32 alunos, crianças de 4 e 5 anos que compuseram a turma da professora em 2007, Jô, como é chamada pelas colegas, conheceu a estrutura familiar dos estudantes, o bairro onde vivem e o lugar em que estudam e brincam. Passou assim a integrar o time de 400 professores-visitadores do Programa Interação Família e Escola, da prefeitura de Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo. Desde 2005, eles visitaram 14 mil famílias e muitos resultados já podem ser comemorados: além da maior aproximação entre a família e a escola, com as visitas, os índices de repetência e evasão diminuíram 40%. Jô dá aulas na Escola Municipal de Educação Infantil Emília, que aderiu ao programa em junho de 2007. Como trabalha também em outra escola, só tem livre o período da noite para conversar com pais, avós ou o responsável pelas crianças. As suas visitas duram, em média, uma hora e a professora recebe 35 reais pela visita. Assim como ela, as outras 15 professoras da escola também vão à casa dos alunos. Juntas, visitaram, no último ano, metade dos 512 estudantes da escola. A proposta do programa é que cada aluno seja visitado uma vez por ano, com encontros que começam em junho e vão até novembro.

Com um novo olhar sobre as origens e hábitos do aluno e da sua família, os professores relatam o que identificam em cada casa e discutem com os demais educadores e a direção da escola, se for o caso, em busca de solução aos problemas que aparecem. “O itinerário da informação colhida nas visitas é muito importante para que o trabalho não se perca”, explica Márcia Santos da Silva Penha, coordenadora do programa na Emei Emília. Em casos de identificação de violência ou algum tipo de abuso, o procedimento é o mesmo orientado na escola: o professor aciona as autoridades responsáveis. Se houver algum caso mais complicado ligado ao desempenho do aluno na escola ou se a mãe quiser, segundo Márcia, os professores retornam às casas. Ela mesma, além de visitar as crianças, pode acompanhar a visita dos outros professores. Foi o que fez na casa de Leandro, quando CartaCapital foi até lá com Jô, para saber o que a família dele tinha achado da visita. “Foi uma conversa boa. O Leandro é um bom aluno”, contou a mãe do garoto, Jeane dos Santos Lobo Silva, que já conhecia a professora do filho. Mas quem gostou mesmo da visita, lembra, foi a avó de Leandro: “Ela gostou de conhecer a professora e falar das coisas que o neto faz em casa”.

Como manda a boa etiqueta, Jô deu de presente à família o livro Iracema, de José de Alencar, uma prática que também é realizada por outros professores do programa. A cada visita, a família ganha um livro. Antes de ir a campo, os professores recebem algumas orientações e sugestões de perguntas para a entrevista. Entre as características a serem observadas, estão as condições de moradia, a estrutura da família, as crenças religiosas e até a presença ou não de bichos de estimação. E as perguntas sugeridas focam a interferência da família na rotina dos alunos. O programa exige mais do professor. E da família também, que é convidada a participar da educação que o filho recebe na escola. Segundo a coordenadora do programa na prefeitura, Andréa Tavares Marques, os professores participam de um curso preparatório para fazer as entrevistas e entender como as observações das visitas e as respostas dadas podem ajudar o aluno pedagogicamente. “O professor não vai lá para bisbilhotar. Quando ele observa, por exemplo, que o aluno não tem onde brincar, ele entende a sua agitação e sugere à mãe que reserve a ele um horário do dia para isso. São sugestões. Não há imposição de nada”, reforça Andréa.

O mais comum, de acordo com Andréa, são casos de arranjos familiares que interferem no desempenho do aluno: “Mesmo que a família não seja a tradicional, e a maioria delas não é, a criança e o adolescente precisam ter uma referência dentro de casa. É isso que explicamos a eles”. Aceitar a visita do professor não é uma obrigação. Os professores enviam, pelos alunos, uma cartinha perguntando aos pais se gostariam de recebê-los e qual seria o melhor horário e dia para conversarem. Como muitos pais trabalham o dia todo e muitos professores dão aula em mais de uma escola, nem sempre é possível atender a todos

Decálogo
a ser seguido pelos gestores para a solução dos problemas de infra-estrutura das Escolas Públicas Estaduais


1
Se não houver merendeira na escola,
não será fornecida a merenda;

2
Se não houver pessoa responsável pela Biblioteca, ela permanecerá fechada;

3
Se não houver escriturários e secretário,
de acordo com o módulo, não haverá entrega de documentos na DE;

4
Se não houver verba para compra
de material e manutenção da sala de informática, o local não será utilizado;

5
Se não houver recursos para reparos e vazamentos no prédio escolar,
não haverá consertos;

6

Se não houver recursos para pintura do prédio, o prédio não será pintado;

7

Se não houver verba para a contratação de contador para as escolas, não haverá prestação de contas à FDE;

8
Se não houver verba suficiente para a contratação de funcionários pela CLT,
o dinheiro será devolvido;

9
Se a mão-de-obra provisória
não for qualificada, será recusada;

10
Se as festas não tiverem o objetivo de integrar a escola à comunidade, não serão realizadas

A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos.

Todas as omissões do Estado, com relação aos itens acima, deverão ser objetos de ofícios da direção às Diretorias Regionais de Ensino, a fim de isentarem o diretor de eventuais responsabilidades administrativas.
Toda e qualquer ameaça de punição aos diretores associados da Udemo, por tomarem aquelas atitudes, será objeto de defesa jurídica por parte do Sindicato, seguida de denúncia ao Ministério Público e propositura de Ações Civis Públicas contra o Estado, pelo não cumprimento das suas obrigações para com as unidades escolares e pelos prejuízos causados à comunidade escolar.