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Matéria
retirada do jornal Folha de São Paulo, de 25/11/07 A doença do silêncio -------------------------------------------------------------------------------- GILBERTO DIMENSTEIN Um relatório
reservado, preparado na semana passada pela Secretaria da Saúde
da cidade de São Paulo com base em 11.381 exames médicos
realizados em escolas públicas, mostra o maior massacre perpetrado
contra crianças no Brasil. É a mais abrangente investigação
de saúde escolar de que se tem notícia e ratifica estudos
isolados já realizados no país. Equipes de médicos
encontraram inúmeros casos de uma doença chamada criptorquidia,
que consiste em falha na descida dos testículos para o saco escrotal.
Será que ninguém teve o mínimo espanto diante de
uma visível anomalia anatômica? Registraram-se múltiplos
casos de problemas de saúde, como sopro cardíaco e obesidade.
Foram determinadas 434 cirurgias urgentes. O relatório
informa que, naquela amostragem, 80% exibiam problemas dentários,
que englobam desde cáries até anomalias mais complexas.
Tente prestar atenção a qualquer coisa sentindo dor dente
para perceber a dificuldade de uma criança numa sala de aula. Pelo
menos 10% dos examinados necessitavam de acompanhamento fonoaudiológico.
Não é preciso ser um gênio para calcular o impacto
que causa a dificuldade de fala no aprendizado. Essas informações
foram obtidas porque, desde o início deste ano, há um programa
de saúde escolar gerido pela Unifesp (Universidade Federal de São
Paulo) em parceria com a Prefeitura de São Paulo. Além do
número de doentes, aparecem falhas no sistema de saúde.
Detectou-se que uma das falhas é a falta de pediatras nos postos
de saúde. "Sabíamos que as notícias seriam graves,
mas não sabíamos que seriam tão graves", reconhece
o secretário municipal da Educação, Alexandre Schneider.
A discrepância brutal entre as notas obtidas no Enem pelos alunos das escolas privadas e pelos das públicas, como se divulgou na semana passada, tem a ver não só com a qualidade dos professores ou do currículo. Como esse teste é menos focado em memorização e mais em associação de informações de diferentes matérias, pesa ainda mais a bagagem do estudante. Essa bagagem abrange o número de livros em casa, os estímulos com brincadeira desde a primeira infância, leitura de jornais e de revistas, acesso à internet, viagens, concertos, teatro, cinema, visita a museus -e, evidentemente, a saúde. Um grande número de crianças doentes recebendo tão pouca atenção é um problema que está no nível de barbárie da prisão de uma adolescente numa cela com 20 homens, como ocorreu em Abaetetuba (PA). PS - Ninguém
levou a sério projeto lançado, na semana passada, pelo senador
Cristovam Buarque, que obriga os governantes e parlamentares a matricular
seus filhos apenas em escolas públicas. Não se levou a sério
porque sabemos que o projeto jamais seria aprovado, seja por falta de
apoio político, seja por questões legais. A provocação,
todavia, é séria. |
Decálogo A nossa escola é, por previsão constitucional, pública e gratuita. Portanto, ela tem de ser custeada pelos cofres públicos. Todas
as omissões do Estado, com relação aos itens acima,
deverão ser objetos de ofícios
da direção às Diretorias Regionais de Ensino,
a fim de isentarem o diretor de eventuais responsabilidades administrativas.
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