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Matéria publicada no
Jornal da Tarde, de 13/07/10
Wanda Camargo
O Hibridismo e a educação
No século XV Gutenberg aperfeiçoou e tornou operacional
a prensa móvel; com isso e a utilização do
papel, os livros tornaram-se sensivelmente mais baratos que os manuscritos
copiados à mão em pergaminho. A possibilidade de muito
mais pessoas terem acesso ao conhecimento gerou ainda mais conhecimento
e novas ideias, uma sinergia intelectual que a humanidade ainda
não havia experimentado.
Dessa sinergia originaram-se os conceitos filosóficos,
científicos e políticos que dominariam a cena nos
séculos seguintes. A evolução da tecnologia,
filha da ciência, culminou nas revoluções industriais
e, já em nossos dias, na revolução da informação.
O armazenamento e o processamento rápido
de dados, a propagação do uso dos computadores pessoais
e a internet mudaram radicalmente nosso mundo. Os modos de produção
são outros, são outras as relações de
trabalho, até as relações pessoais estão
em mutação.
Há pouco mais de quarenta anos, administradores,
economistas, engenheiros e contadores usavam calculadoras de manivela,
réguas de cálculo e tabelas de logaritmos para fazer
o seu trabalho; o advento de calculadoras eletrônicas relativamente
baratas praticamente aposentou aqueles recursos, mas não
tornou desnecessários os profissionais que os usavam. Pelo
contrário, equipamentos mais rápidos passam a demandar
noções mais acuradas do que se pretende fazer com
eles. Mesmo com os programas de desenho e de cálculo, não
é "o computador que faz" projetos de edifícios,
são engenheiros e arquitetos que os fazem, usando o computador
como instrumento. Porém, mais que alguns anos atrás,
estes profissionais precisam estar extremamente atualizados com
as mais recentes descobertas, perfeitamente "antenados"
com o estado da arte de sua área de atuação.
Neste mundo, onde as máquinas e os métodos
tornam-se obsoletos quase na hora em que entram em operação,
precisamos desenvolver nosso potencial de aprendizado contínuo.
Estamos em crescente processo de hibridismo cultural, trocando informações
de forma quase instantânea, misturando economias, gastronomia,
diversão e até mesmo conceitos religiosos.
O idioma já não é um empecilho,
nossos tradutores eletrônicos nos permitem acesso ao que de
melhor (ou pior) é produzido mundialmente sobre qualquer
assunto, nosso conhecimento compartilhado em rede supera as bibliotecas
de nossa cidade embora não as torne desnecessárias.
É complexo estabelecer hoje aquilo que
é, ou não, característico de nossa cultura,
já que comer sushi é possível em cada esquina,
e este é prato preferido de grande parte de nossos jovens.
As roupas que usamos são vendidas na quase totalidade do
planeta, boa parte dos autores que lemos tem obras disponíveis
em livrarias de muitos países. O último avanço
científico está nas páginas de nossos jornais
diariamente.
Como ensinar nos dias atuais? Como aprender?
O processo da hibridação cultural traz mescla de discursos,
nem todos legítimos, alguns contraditórios, e, assim
como as alterações na constituição da
família e originalidade do exercício profissional,
encaminham novos temas aos currículos escolares, novas resistências
e confrontos. Na paleta pedagógica, a todos cabe a difícil
arte de recontextualizar o cotidiano.
Wanda Camargo, Comissão do Processo Seletivo
das Faculdades Integradas do Brasil - Unibrasil.
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