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Folha de São Paulo, de 09/02/10: TENDÊNCIAS/DEBATES
RUDÁ RICCI O processo educativo envolve muito mais que avaliações meramente quantitativas focadas no educando
Falta de imaginação ou discurso mercadológico
de aceitação externa, o fato é que mais parece tentativa
de excluir diretores, especialistas e professores do debate sobre os rumos
da educação, fazendo coro para envolver o grande público.
Como se a saída para a educação fosse questão
circunscrita à disputa da opinião pública. O que seria qualidade na área educacional? Pelo
discurso dos gestores públicos, as notas de avaliações
sistêmicas: Saresp, Ideb, Simave etc. Seguindo essa trilha, a questão
seguinte seria, por lógica, o que as avaliações sistêmicas
deveriam investigar. Aí topamos com um imenso silêncio. Hannah Arendt sugeria que a função da educação
é a humanização, ou seja, a inserção
dos educandos na humanidade, conformada por experiências plasmadas
na linguagem, na escrita, na música, nas artes. Para autores mais
focados no sucesso individual, a qualidade da educação estaria
centrada no progresso acadêmico ou de emprego-renda do educando. E nossas avaliações sistêmicas, elas
partem de qual princípio? De um vago e generalizado desempenho
dos educandos, sem que os não gestores tenham condição
de penetrar nessa fórmula mágica. Já temos ao menos duas décadas de experiências
com avaliações sistêmicas externas a respeito do desempenho
de nossos alunos. Mas, pelos artigos e propostas apresentadas pelos gestores
na grande imprensa, os avanços promovidos foram pífios. Não chegaram a sinalizar os rumos a serem seguidos
para a qualidade e o sucesso tão propalados. Ao contrário. Dados recentes divulgados pelo Ipea indicam que apenas
13% dos jovens entre 18 e 24 anos frequentavam universidade em 2007. Trata-se
da faixa etária mais vulnerável ao desemprego em nosso país.
Os dados oficiais revelam uma situação ainda mais grave:
menos da metade dos adolescentes entre 15 e 17 anos cursava o ensino médio
em 2007. As disparidades regionais e entre campo e cidade nos aproximam
de uma calamidade pública: 57% desses adolescentes que vivem nas
cidades brasileiras frequentam o ensino médio, índice que
despenca para 31% no caso dos que residem no campo. E aí começamos a desvelar o mundo real da
educação, e não esse pasteurizado e inatingível
pelos resultados das avaliações sistêmicas: a taxa
de frequência dos que têm renda mensal superior a cinco salários
mínimos é dez vezes maior que a dos que percebem até
meio salário mínimo. Circunscrever o foco da avaliação de desempenho
à escola, não avaliando o impacto da condição
das famílias na performance escolar, é pouco inteligente.
E sustentar que a melhora do desempenho de nossos educandos ocorre a partir
da premiação de professores é um gasto desnecessário
e de pouca evidência de sua eficácia. Sem articulação de políticas públicas
que fechem o círculo da formação de nossas crianças
e jovens, envolvendo escola, família e comunidade, todas iniciativas
se aproximam de tentativa e erro dos nossos gestores. Talvez essa seja
a motivação para se tornarem tão apaixonados pelas
fórmulas que os cidadãos não gestores não
compreendem em sua totalidade. Daí por que vários se envolvem com articulações
políticas e de conquista da opinião pública cujo
mote é envolver todos pela educação, como se fora
mobilização sem base social, cujos líderes são
a própria base. Porque é uma aposta, e não uma certeza. O processo educativo envolve muito mais que avaliações
meramente quantitativas focadas no educando. Envolve o consórcio de professores e educadores
que contribuem para a formação cotidiana do educando. Envolve
o impacto dos hábitos dos pais. Também sabemos que o perfil do dirigente escolar
impacta decisivamente no desempenho de alunos. Mas as avaliações da moda no Brasil não
conseguem articular esses inputs. No máximo, apresentam dados frios
que não auxiliam os educadores a compreender por qual motivo 30%
dos seus alunos não sabem interpretar textos complexos, ao contrário
do restante. E, assim, lançam mão da tradicional e equivocada
aula de reforço, que repete fórmula que já se revelou
equivocada anteriormente. Enfim, marketing e educação nunca foram bons
aliados. Educação não vive limitada às boas
intenções. Trata-se de um tema lastreado em estudos e pesquisas
que não geram respostas fáceis. RUDÁ RICCI, 47, doutor em ciências sociais, é membro do Fórum Brasil de Orçamento e consultor do SindUTE-MG (Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais) e do Sinesp (Sindicato dos Especialistas de Educação do Ensino Público Municipal de São Paulo). rudaricci.blogspot.com
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