Destaques

 

 

UDEMO | 29/07/2026 | Atualizado em 5/08/26 17:51


CARTA ABERTA AO SECRETÁRIO DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO

Por uma educação pública centrada na aprendizagem, na valorização do professor e no desenvolvimento integral dos estudantes

A educação pública é o mais importante instrumento de desenvolvimento de uma sociedade. É por meio dela que se formam cidadãos, se reduzem desigualdades e se constroem as bases do progresso científico, econômico e humano. Investir em educação é investir no futuro do Estado de São Paulo.

Esta carta nasce da experiência de quem acompanha diariamente a realidade das escolas públicas estaduais e tem como propósito contribuir para o aperfeiçoamento das políticas educacionais. Não se trata de uma crítica às iniciativas desenvolvidas pela Secretaria da Educação, mas de uma reflexão sobre caminhos capazes de fortalecer aquilo que constitui a verdadeira finalidade da escola: garantir que todos os estudantes aprendam.

Nas últimas décadas, houve avanços importantes na ampliação do acesso à educação, na implementação de sistemas de avaliação e na modernização da gestão escolar. Entretanto, os resultados das avaliações externas demonstram que ainda persistem dificuldades significativas, especialmente na consolidação das competências fundamentais de leitura, escrita e Matemática.

O maior desafio da educação paulista não é apenas assegurar que o estudante frequente a escola, mas garantir que ele conclua cada etapa de sua formação dominando os conhecimentos indispensáveis para continuar aprendendo ao longo da vida.

Os indicadores educacionais devem ser compreendidos como instrumentos de diagnóstico e não apenas como mecanismos de controle. Quando revelam dificuldades persistentes, precisam orientar intervenções pedagógicas consistentes, voltadas à recuperação das aprendizagens e ao aperfeiçoamento das práticas de ensino.

A aprendizagem depende de múltiplos fatores: professores bem preparados, gestão pedagógica eficiente, participação das famílias, ambiente escolar organizado e políticas públicas fundamentadas em evidências científicas. Nenhuma tecnologia, plataforma digital ou sistema de monitoramento substitui a relação humana estabelecida entre professor e estudante, elemento central de todo processo educativo.

Desde a Antiguidade, pensadores como Sócrates, Platão e Aristóteles compreenderam que educar significa muito mais do que transmitir informações: significa desenvolver a capacidade de pensar, agir com responsabilidade e participar conscientemente da vida em sociedade.

Essa tradição foi aprofundada por educadores como Johann Heinrich Pestalozzi (1746 – 1827), que defendia o desenvolvimento harmonioso da inteligência, dos sentimentos e da ação, e por Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804 – 1869), educador francês que, em 1828, no seu Plano Proposto para a Melhoria da Educação Pública, já afirmava que a educação deveria ser estudada cientificamente, propondo a criação de uma escola de Pedagogia destinada à formação especializada dos educadores.

Essa visão permanece atual. Ensinar exige domínio do conhecimento, compreensão dos processos de aprendizagem, preparo técnico, equilíbrio emocional e compromisso permanente com o desenvolvimento humano.

As contribuições de Jean Piaget e Lev Vygotsky reforçam essa compreensão ao demonstrar que o conhecimento é construído progressivamente por meio da interação entre o estudante, o professor e o ambiente escolar. O papel do docente, portanto, não é apenas transmitir conteúdos, mas criar condições para que o estudante desenvolva autonomia intelectual, pensamento crítico e capacidade de resolver problemas.

Por essa razão, uma educação de qualidade precisa colocar no centro de suas políticas aquilo que efetivamente produz aprendizagem: leitura, escrita, raciocínio lógico, pensamento científico, formação de professores e acompanhamento pedagógico permanente.

A tecnologia representa um importante recurso de apoio ao ensino, ampliando o acesso ao conhecimento e favorecendo novas estratégias pedagógicas. Contudo, deve permanecer subordinada aos objetivos educacionais, sem substituir a mediação do professor, o diálogo, a convivência escolar e o desenvolvimento das capacidades cognitivas essenciais.

A escola do século XXI precisa integrar inovação tecnológica e fundamentos pedagógicos sólidos, preservando aquilo que sempre caracterizou a boa educação: professores preparados, estudantes motivados e uma cultura escolar orientada pelo conhecimento.

A família como parceira indispensável da educação

A escola pública não atua em um vazio social. Nas últimas décadas, os profissionais da educação têm enfrentado um aumento significativo de desafios decorrentes da profunda transformação da estrutura familiar e do agravamento de problemas sociais que ultrapassam os limites da atuação pedagógica.

Entre esses desafios destaca-se o impacto devastador da dependência química. O consumo abusivo de drogas lícitas e ilícitas tem provocado a desestruturação de inúmeras famílias, comprometendo vínculos afetivos, reduzindo a capacidade de acompanhamento da vida escolar dos filhos e expondo crianças e adolescentes a situações de negligência, violência, insegurança emocional e vulnerabilidade social.
Em muitas escolas da rede pública, professores e gestores convivem diariamente com estudantes que carregam consigo as consequências desse cenário: dificuldades de concentração, instabilidade emocional, transtornos de comportamento, evasão, indisciplina, sofrimento psíquico e defasagens significativas de aprendizagem. Esperar que a escola resolva, isoladamente, problemas cuja origem está na desagregação social significa atribuir-lhe uma responsabilidade que extrapola sua missão institucional.

Isso não representa uma crítica às famílias, muitas das quais enfrentam enormes dificuldades econômicas, emocionais e sociais, mas um reconhecimento de que a educação de qualidade depende da ação conjunta da família, da escola e do poder público.

Por essa razão, defendemos que a política educacional do Estado de São Paulo seja articulada com políticas de assistência social, saúde mental, prevenção ao uso de drogas, fortalecimento dos vínculos familiares e proteção da infância e da adolescência. O sucesso escolar não depende apenas de currículos, avaliações ou plataformas digitais; depende também de condições mínimas para que o estudante encontre, em casa e na comunidade, um ambiente favorável ao desenvolvimento humano.

Educar é uma responsabilidade compartilhada. A escola pode transformar vidas, mas seus resultados tornam-se muito mais consistentes quando encontra famílias fortalecidas e uma rede de proteção social capaz de enfrentar as causas profundas da exclusão e das dificuldades de aprendizagem.

CAMINHOS PARA UMA EDUCAÇÃO PÚBLICA PAULISTA DE QUALIDADE

Transformar a educação pública exige reconhecer que nenhuma política educacional produzirá resultados duradouros se a aprendizagem não ocupar o centro das decisões. O sucesso de um sistema de ensino depende da articulação entre professores valorizados, gestores comprometidos, famílias participantes e políticas públicas estáveis, construídas com base em evidências e na experiência das escolas.
O professor é o principal agente da aprendizagem. Nenhuma plataforma digital, material didático ou recurso tecnológico substitui sua capacidade de interpretar dificuldades, despertar o interesse pelo conhecimento e desenvolver o potencial de cada estudante. Valorizar o magistério significa oferecer formação inicial sólida, formação continuada de qualidade, autonomia pedagógica, condições adequadas de trabalho e reconhecimento profissional.

A família também exerce papel decisivo. A aprendizagem torna-se mais consistente quando escola e família compartilham responsabilidades, estimulando hábitos de estudo, disciplina, respeito e compromisso com a educação. Uma política educacional bem-sucedida deve fortalecer essa parceria permanente.

A formação continuada precisa concentrar-se nos desafios reais da sala de aula. Mais do que capacitações voltadas ao uso de ferramentas administrativas, é necessário aprofundar estudos sobre alfabetização, leitura, produção textual, ensino da Matemática, desenvolvimento do raciocínio lógico, avaliação diagnóstica, inclusão escolar e fundamentos científicos da aprendizagem.

Da mesma forma, a gestão educacional deve exercer, prioritariamente, uma liderança pedagógica. Uma gestão eficiente acompanha as aprendizagens, apoia seus professores, fortalece o trabalho coletivo e promove a melhoria contínua da qualidade do ensino.

Nesse contexto, propõem-se algumas diretrizes que podem contribuir para o fortalecimento da educação pública paulista:

  1. Colocar a aprendizagem como objetivo central de todas as políticas educacionais, assegurando que cada estudante desenvolva plenamente as competências essenciais de leitura, escrita, Matemática e pensamento científico.
  2. Implantar uma política permanente de recuperação das aprendizagens, utilizando avaliações diagnósticas para orientar intervenções pedagógicas precoces e individualizadas.
  3. Valorizar efetivamente o professor, reduzindo burocracias desnecessárias, fortalecendo sua autonomia, ampliando oportunidades de formação continuada e oferecendo condições adequadas para o exercício da docência.
  4. Consolidar a leitura, a escrita e o raciocínio lógico como prioridades curriculares, por constituírem a base para o desenvolvimento de todas as demais áreas do conhecimento.
  5. Utilizar a tecnologia como instrumento complementar, sempre subordinada aos objetivos pedagógicos e à mediação do professor, preservando as relações humanas que caracterizam o processo educativo.
  6. Construir uma política educacional de Estado, baseada em planejamento de longo prazo, continuidade administrativa e diálogo permanente com os profissionais que vivenciam diariamente a realidade das escolas.


A educação pública paulista possui tradição, competência técnica e profissionais altamente comprometidos. Com planejamento, valorização dos educadores e foco permanente na aprendizagem, é possível elevar significativamente a qualidade do ensino oferecido aos milhões de estudantes da rede estadual.

Mais do que administrar um sistema de ensino, educar significa preparar as novas gerações para compreender o mundo, exercer a cidadania, produzir conhecimento e transformar a sociedade. Esse compromisso ultrapassa governos, programas e indicadores: trata-se de um compromisso histórico com o futuro de São Paulo.

Uma sociedade somente poderá construir um futuro melhor quando compreender que investir na educação significa investir na própria humanidade.

Esta carta é apresentada no espírito do diálogo institucional e da colaboração, com o sincero propósito de contribuir para o fortalecimento da educação pública paulista. Acreditamos que o aperfeiçoamento das políticas educacionais se constrói pela escuta dos profissionais da educação, pela valorização do conhecimento científico e pelo compromisso comum com a aprendizagem de todos os estudantes.

Fernando Luís Costa Lemos*

O Autor é associado da Udemo



Udemo nas Redes Sociais !
Curta a nossa página do Facebook
Siga a UDEMO no Instagram
Grupo de divulgação da UDEMO no Facebook!
Canal da Udemo no YouTube
Canal da UDEMO no WhatsApp!
Twitter da Udemo
Grupo 1 de Divulgação da UDEMO no WhatsApp!
Grupo 2 de Divulgação da UDEMO no WhatsApp!
Grupo 3 de Divulgação da UDEMO no WhatsApp!
Grupo 4 de Divulgação da UDEMO no WhatsApp!

 

 

 

 
Filie-se à Udemo