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UDEMO |23/02/21 | Atualizado em 23/02/21 17:13


CARTA ABERTA UNESP

UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” / CAMPUS UNIVERSITÁRIO DE BAURU / DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO/FC

CARTA ABERTA ÀS COMUNIDADES EDUCATIVAS MUNICIPAIS, ESTADUAIS E FEDERAIS

Nós, professores e professoras do Departamento de Educação e do Conselho do Curso de Pedagogia da Faculdade de Ciências da UNESP/Bauru, diante da pandemia da Covid-19, que ameaça a saúde e a vida das pessoas de todas as idades, situação que pode ser agravada pelas mutações já parcialmente identificadas do novo Coronavírus, vimos manifestar publicamente a nossa preocupação com as decisões do poder executivo nas esferas federais, estaduais e municipais, que determinaram o retorno às aulas presenciais nas escolas das redes pública e privada de Educação.

O conhecimento profissional que temos do cotidiano escolar, em todos os níveis educacionais, responsabiliza-nos a apontar os sérios riscos e a confirmar as possíveis consequências sanitárias a que toda a comunidade escolar estará exposta ao retornar às aulas presenciais, em qualquer proporcionalidade, pois ainda agravará a condição dos alunos de famílias mais vulneráveis.

Além disso:

- O vírus é altamente contagioso, sobretudo as cepas recém-descobertas e, ainda, em estudo;

- Há milhões de infectados, muitos com sequelas detectadas, e um número superior a 230 mil mortos no Brasil;

- Há um elevado índice de saturação dos sistemas de saúde público e privado, com falta de leitos de UTI e de profissionais intensivistas;

- É crescente o número de mortes fora dos grupos de risco, sobretudo por doenças graves, como câncer, doenças autoimunes e outras comorbidades;

- A imunização dos profissionais da educação ainda não foi iniciada, sobretudo, em virtude da escassez de vacinas e não priorização deste público;

Paralelamente, o retorno às aulas presenciais amplia os riscos de contaminação da comunidade, pois:

- A constituição social da infância, expressa pelo comportamento da criança de intenso movimento e curiosa inquietação, poderá, no cotidiano escolar, levar à exposição das crianças à Covid-19, fator que amplia o ciclo de contaminação familiar e social;

- Os trajetos escolares, em transportes públicos e privados, ou a pé, aumentam os riscos de contaminação sem o respeito ao distanciamento social adequado e outras exigências sanitárias;

- O retorno às aulas presenciais aumenta a circulação das pessoas ocasionando maiores riscos à saúde;

- A sala de aula, quando não há condições físicas adequadas, aumenta o risco de contaminação pela Covid-19, porque não há garantia de efetivo distanciamento entre os alunos. O uso contínuo e obrigatório de máscaras protetoras exige trocas espaçadas e o descarte com os devidos cuidados sanitários. Sem esses cuidados, até mesmo uma medida protetora pode se tornar um fator que amplia os riscos às crianças;

- Os horários dos lanches e refeições deixarão as crianças ainda mais vulneráveis. Muitas escolas não possuem infraestrutura, recursos humanos e outros recursos adequados para evitar a contaminação nos espaços comuns;

- Nas escolas públicas, onde se encontra matriculada a imensa maioria de estudantes, os cuidados com as crianças e adolescentes exigem profissionais atuantes nas salas de aula, além dos professores, nos serviços de higienização e limpeza frequente das dependências escolares. A pandemia afastou muitos funcionários e professores dos grupos de risco, muitos adoeceram, outros faleceram ou foram contaminados. Isso agravou ainda mais a falta crônica e histórica de profissionais nas escolas públicas;

- A maioria de nossos estudantes vive em situação de extrema pobreza, agravada pela pandemia e pelo desemprego. A ampliação da rede de contágios contribuirá com o colapso do sistema de saúde pública, o que já é realidade em muitos estados brasileiros, inclusive na cidade de Bauru e região. Uma vez colapsado o sistema de saúde de Bauru e região esse grupo de estudantes pode não ter atendimento médico especializado, em caso de contaminação e evolução para doença grave.

Entendemos e defendemos que lugar de criança é na escola, espaço formal de aprendizagem e desenvolvimento humano. Mas, no contexto atual de pandemia, a prioridade é defender a vida de todos: profissionais da educação, crianças/alunos e famílias, para que, quando tivermos as condições sanitárias necessárias satisfeitas, possamos retomar o trabalho pedagógico presencial e as lutas constantes pela melhoria da Educação.

Cabe ressaltar também nossa solidariedade aos professores, gestores e funcionários das escolas têm posicionado em favor da preservação da vida e, consequentemente, contra o retorno às atividades escolares, neste momento. Por esse motivo, muitos deles têm sofrido ataques pessoais e coletivos, que procuram macular e fragilizar a imagem de quem exerce o importante papel na tarefa de educar e preservar a vida. Verifica-se que tais ataques, de cunho ideológico e sem qualquer fundamento científico, teórico e prático, visam tão somente reforçar o desejo imediato de retorno às aulas, algo descabido diante do número de mortos que superam o das grandes guerras mundiais.

Como professores da universidade pública em pleno desenvolvimento de nossas funções, temos o dever e a obrigação de nos posicionarmos publicamente frente às medidas autoritárias e a lógica de mercado; e de colaborar com a discussão e implementação de pautas coletivas relevantes, que priorizem a ética, a responsabilidade social e a vida, acima de tudo, sobretudo para os mais vulneráveis.

Vimos nos posicionar publicamente, porque, pela própria exigência da profissão, temos a oportunidade de, constantemente, ter acesso aos espaços educacionais estratégicos, à ciência, à tecnologia e aos conhecimentos sociopolíticos e socioambientais contemporâneos. Portanto, temos conhecimentos e instrumentos para interpretar a realidade, para avaliar os fatos e as condições concretas de nossa sociedade e para compreender a realidade da educação escolarizada da cidade de Bauru-SP.

Estamos mobilizados e engajados na defesa da saúde e da vida de cada pessoa de nossa cidade, de nosso estado, de nosso país. Não há facilidades em tempos de pandemia, e as dificuldades têm de ser enfrentadas com conhecimentos e com a discussão dos grupos envolvidos em estudos sobre a pandemia e sobre a educação, em cada nível de ensino. As dificuldades têm de ser enfrentadas ainda com políticas públicas de emprego, saúde e educação que viabilizem a diminuição de risco iminente de contaminação e mortes com os alunos nas escolas.

Defendemos que os professores, como categoria profissional, sejam priorizados junto a outros grupos mais vulneráveis e expostos, assim como a vacinação urgente de toda a população brasileira por meio de políticas públicas adequadas de imunização, como direito de todo cidadão e dever do Estado.

Por fim, mas não menos importante, esclarecemos que os professores e professoras deste Departamento de Educação e o Conselho do Curso de Pedagogia, da Faculdade de Ciências da UNESP/Bauru, seguem num trabalho diário e incessante de estudos, pesquisas, orientações e parcerias que garantam a qualidade da educação pública que oferecemos, defendemos e construímos, ainda que nesse longo período de distanciamento social.


Veja aqui a Carta Aberta em formato PDF

 


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