Leituras

 

 

Matéria publicada na Revista Gestão Universitária, 10 de julho de 2013.

DRAMATIZAÇÃO: uma possível técnica no processo ensino-aprendizagem

Luiz Carlos dos Santos - Revista Gestão Universitária - 10/07/2013 - Belo Horizonte, MG

Aos que atuam enquanto professores, mas não tiveram formação pedagógica (curso de licenciatura), nem foram capacitados por meio de cursos de extensão universitária, de curta duração ou programas continuados, oferecidos aos integrantes do corpo docente de Instituições de Ensino, inclusive Faculdades, Centros Universitários e Universidades, visando o pleno domínio em sala de aula, tanto no que concerne ao conteúdo específico quanto ao instrumental didático-pedagógico, o conhecimento de como e porque fazer em termos de técnicas de ensino é de capital importância no desempenho da função docente, para que sejam alcançados os objetivos de determinada disciplina, atividade ou denominações congêneres, constante de uma matriz curricular de um Projeto Pedagógico de Curso (PPC).

Talvez, por isso (a falta de conhecimento das técnicas de ensino), muitos dos que estão na condição de professor, porém com formação de bacharelado fiquem circunscritos à aula-expositiva, muitas vezes deixando os discentes na passividade, ou o que Freire (1996) denominou de “educação bancária”. O fato é que existem várias técnicas de ensino, as quais são mais apropriadas, dependendo do assunto/tema a ser abordado pelo professor.

A técnica da aula expositiva-participativa, com utilização da Tecnologia da Informação (TI) - projetor multimídia, a mais utilizada, mas nem por isso, a mais aconselhada para todos os conteúdos programáticos, pode ser considerada como um avanço, se comparada com a aula meramente expositiva. Entretanto, às vezes, o profissional “professor”, limita-se à leitura do que está escrito no slide, sem aprofundamento e relação com um caso in concreto na área, em suma - o estabelecimento de link com a realidade. O aluno neste tipo de técnica tem que ser motivado a participar, a partir de perguntas/esclarecimentos e ponderações.

Quase raramente, encontra-se um docente que introduz outras técnicas, no seu labor professoral, a exemplo de seminário, painel, resolução de problemas, exibição de vídeo, seguida de comentário, dentre outras. Feitas estas abordagens, o presente artigo traz, de forma sintética, informações sobre a técnica da dramatização, que pode ser utilizada nas aulas vinculadas, também, às Ciências Sociais Aplicadas - Contabilidade, Administração, Direito, Economia, Comunicação Social, dentre outras, tanto no nível da graduação quanto na pós - lato ou stricto sensu.

De acordo com Scarpato (2004), a dramatização como técnica de ensino tem como proposta envolver os alunos em uma dinâmica diferenciada das aulas puramente expositivas. Com esta técnica, é possível trabalhar e integrar diversas áreas, mesclando a arte com a ciência. Esta técnica pode ser configurada como uma representação teatral a partir de um tema. Pode ainda, com uma visão diferenciada, trabalhar com elementos visuais como filmes, desenhos, fantoches, entre outras ferramentas que auxiliem na dramatização.

Entre os pontos positivos da dramatização como metodologia de ensino, destacam-se a motivação à boa fluência verbal/expressão oral; estímulo à capacidade de dramatização; poder de síntese; realização de trabalho em grupo; criação coletiva de ideias; criatividade; entrosamento; envolvimento com a linguagem corporal e teatral; estratégia na exposição de fatos e ocorrências no mundo das organizações (públicas, privadas e do terceiro setor), entre outros pontos.

Convém ressaltar que esta técnica pode contar com aspectos negativos, como por exemplo, a visão de que se pode desenvolver as atividades dramáticas em sala de aula apenas sob baixo custo. Como cultura é um investimento intelectual, esta não deve ser a visão prioritária. Não se pode apenas utilizar materiais de baixo custo, pois com a técnica é possível ter um incremento em vários aspectos das relações da comunidade escolar/acadêmica. Para, além disso, esbarra nesta técnica dificuldades políticas envolvendo a direção da escola ou IES. Na percepção da autora supramencionada, algumas Instituições podem encarar a técnica como “matar aula”.

Ainda nesta perspectiva, cabe incluir a dificuldade de expor-se, de comunicar-se como um forte entrave no desenvolvimento do aluno. “Como ter coragem de manifestar minha opinião diante de tantos colegas?” “Como ler em voz alta, com naturalidade, para a classe/turma?” São perguntas que podem estar no íntimo de muitos estudantes nas escolas (em qualquer nível de ensino). Não é difícil identificá-los, são justamente aqueles que acabam sendo “esquecidos” em salas, nas quais os mais extrovertidos e comunicativos “roubam”, sem intenção, logicamente, suas oportunidades de participação. Partindo dessa reflexão, entende-se que a dramatização no espaço da sala de aula como uma forte aliada para que tal situação seja modificada, pois, segundo Courtney (2003), a imaginação dramática está no centro da criatividade humana e, assim sendo, deve estar no centro de qualquer forma de educação que vise ao desenvolvimento das características essencialmente humanas.

Saliente-se que as artes, entendidas como formas humanas de expressão semiótica, ou seja, como processos de representação simbólica para comunicação do pensamento e dos sentimentos do ser humano, fizeram com que seu valor e importância na formação do educando fossem concebidos em novas bases. Sabe-se que a principal característica que distingue o ser humano das outras espécies animais é o uso social de signos para comunicação, controle, organização e transformação de seu comportamento. Esse uso dos símbolos como instrumentos psicológicos afeta, de forma irreversível, o funcionamento mental humano, bem como a estrutura das relações entre pessoas intra e interculturalmente (VYGOTSKY, 1984).

A construção coletiva do trabalho, decorrente da técnica de dramatização é de suma importância, visto que é por meio das discussões que os estudantes podem transformar e serem transformados enquanto interagem entre si. A técnica permite caracterizar o problema estudado, trabalhar a coleta de informações, avaliar e refletir sobre o que foi apurado, selecionar o mais importante para a dramatização, entre outros.

O discente deverá desenvolver a capacidade de analisar os problemas, propor soluções e refletir sobre situações conflitantes, buscando caminhos e alternativas, de forma coletiva, por exemplo - sobre as políticas públicas de inclusão social; avaliação do desempenho de gerentes de uma organização; efetivação da transparência na gestão pública; modalidades de licitação; construção de arranjos produtivos; comunicação empresarial; desempenho dos discentes na disciplina estágio supervisionado, entre outros.

Convém frisar que a formação técnico-profissional, de forma contextualizada, crítica, analisadora e transformadora é determinante ao futuro profissional. Isto requer o desenvolvimento de concepções de cunho coletivo, responsável e participativo. Assim, a formação em tela deve utilizar várias técnicas de ensino para que o egresso possa atender a sociedade do século XXI, percebendo-o como uma extensão não somente de uma prática, técnica, mas identificando e buscando o princípio educativo que o envolve. Não se pode esquecer que os sujeitos no processo ensino-aprendizagem são seres humanos, e entre tanta semelhança e diversidade, merecem o respeito em sua individualidade, capacidade, potencialidade, limitação e ritmo próprio de realizar, produzir ou simplesmente, ser.

Cabe ao estudante conhecer a importância desse respeito, integrando-o nas suas relações interpessoais, de forma cooperativa e solidária. Ao professor-educador, convém conhecer e respeitar cada indivíduo, conduzindo-o no processo educativo com um objetivo comum, identificando o ritmo de cada um e estimulando a progressão do grupo. Algumas características do professor podem influenciar no aprendizado e é relevante que o docente saiba como o discente o vê, para que, se necessário, ajuste-se, transforme-se, a fim de tornar-se um elemento facilitador no processo.

As Instituições de Ensino devem conhecer, respeitar e perceber as grandes dimensões de seu papel como entidade formadora, tanto do profissional quanto do cidadão, estabelecendo diretrizes sólidas e coerentes em seus objetivos, métodos de trabalho, qualificação do corpo docente nas dimensões do conteúdo específico e pedagógico, mantendo-se em sintonia com o mercado de trabalho e com a sociedade, contribuindo para o desenvolvimento socioeconômico local e regional do estado, bem assim no plano nacional.

Finaliza-se este texto reafirmando a relevância do estudo da dramatização como estratégia de ensino, em várias áreas do saber e nos diferentes graus. Acredita-se que o uso da dramatização pode romper as usuais técnicas de ensino, porque também avalia conteúdos de textos selecionados, propicia uma prática de aprendizagem ativa, modificando assim, paradigmas tradicionais norteados pelo ciclo da transmissão e difusão de conhecimento. A técnica objeto deste escrito pode ser aplicada em distintos cursos - ela desvenda a natureza do saber ser e fazer, constituindo-se em uma metodologia de ensino inovadora, mas que ainda não é, infelizmente, aplicada de forma ampla.

Referências

DEMO Pedro. Educar pela pesquisa. 2. ed. Campinas (SP): Autores Associados; 1997.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed., São Paulo: Paz & Terra, 1996.

SANTOS, Luiz Carlos dos. Tópicos sobre Educação, Metodologia da Pesquisa Científica [...]. Salvador: Quarteto, 2007.

SCARPATO, Marta. Os procedimentos de ensino fazem a aula acontecer. São Paulo: Avercamp, 2004.

TOBASE, Lúcia; GESTEIRA, Elaine Cristina Rodrigues; TAKAHASHI, Regina Toshie. A utilização da dramatização na graduação de enfermagem. Disponível em: . Acesso em: 19 maio 2013.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: interação entre aprendizagem e desenvolvimento. São Paulo: Martins Fontes, 1984.

 


 

 

 
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