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Matéria publicada na Folha de São Paulo, 08 de dezembro de 2011.

Soneca genética

Pesquisas mostram componente hereditário da necessidade de ficar um pouco mais na cama, mas hábitos e criação também são importantes

MARIANA VERSOLATO
DE SÃO PAULO

Pesquisadores europeus descobriram uma possível explicação para o sono dos dorminhocos: uma variante genética cujo efeito é necessitar de mais horas de descanso.

Para chegar a essa conclusão, cientistas da Universidade de Edimburgo, na Escócia, e da Universidade Ludwig Maximilians, em Munique, reuniram os dados de cerca de 4.000 pessoas da Europa, que responderam a questionários sobre seus hábitos de sono, tanto nos dias úteis quanto nos dias livres.

Amostras de DNA dos participantes foram analisadas e observou-se que aqueles que dormiam mais tinham essa variante genética. O estudo foi publicado no periódico "Molecular Psychiatry".

Segundo Rosa Hasan, neurofisiologista do Laboratório do Sono do Instituto de Psiquiatria da USP, o estudo mostra que a genética influencia, sim, a duração do sono, e que existem diferentes perfis de "dormidores".

"Na verdade, a gente não precisa nem ver os genes para saber que cada um tem seu ritmo, e é importante respeitá-lo", afirma.

Há, no entanto, muitos outros fatores que influenciam na duração e na qualidade das horas de descanso, como idade, hábitos desde a infância, distúrbios do sono e até as estações do ano. Sem contar outros genes já relacionados ao ato de dormir.

"No sono, é raro que apenas um gene tenha um efeito arrasador. O estudo mostra o efeito de um deles, mas há um rol de genes associados à regulação do sono", afirma Mario Pedrazolli, professor associado da USP e especialista em genética do sono.

Ele afirma ainda que não dá para estabelecer uma relação direta entre o gene e o comportamento.

"A pessoa pode ter a tendência a ter o sono mais curto ou mais longo, mas isso depende também de como é a vida dela e de como o cérebro dela construiu conexões para regular o sono."

DEZENAS DE GENES

Outras pesquisas já demonstraram a relação entre genes e o sono. Segundo Pedrazzoli, hoje conhecemos cerca de 20 desses genes.

Um estudo da Universidade da Califórnia, de 2007, dizia que as pessoas que gostam de acordar e dormir cedo poderiam fazer isso por influência de seu DNA.

Pesquisadores brasileiros também estudaram uma outra alteração hereditária, no gene Per3. Nesse caso, quem possui a mutação pode tender a dormir tarde.

Dalva Poyares, neurologista do Instituto do Sono da Unifesp, afirma que mais achados nessa área poderiam, no futuro, influenciar o tratamento da insônia, o desenvolvimento de remédios para dormir mais (ou menos) e até políticas de trabalho - quem precisa dormir mais poderia até mudar seu horário.

"Um médico poderia falar que, de acordo com o genótipo da pessoa, ela precisaria ter um sono mais longo", diz Pedrazzoli.

Se pudesse, a produtora de TV Juliana Belotto, 25, de São Paulo, escolheria trabalhar sempre à tarde e à noite. Ela conta que gosta de dormir bastante desde criança. "No fim de semana, durmo cerca de 12 ou 13 horas e acordo bem." Para ela, acordar cedo sempre foi um sacrifício. "Acho que nasci com isso."