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Matéria publicada na Folha de São Paulo, 30 de outubro de 2011.

Sofrer de ansiedade mostra que ainda
somos humanos

ENTREVISTA ANA BEATRIZ BARBOSA SILVA

PSIQUIATRA LANÇA LIVRO SOBRE ANSIEDADE; PARA ELA, APESAR DO RISCO TRAZIDO PELO TRANSTORNO, A INDIFERENÇA É A MAIOR AMEAÇA

DÉBORA MISMETTI
EDITORA-ASSISTENTE DE SAÚDE


Enquanto ainda formos ansiosos, há esperança. Para a psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa Silva, que está lançando "Mentes Ansiosas", quinto livro de uma série de obras que já trataram de bullying, psicopatia e deficit de atenção, o problema é quando as pessoas viram as costas e não se importam mais com nada.
O novo livro da médica trata dos principais transtornos de ansiedade, passando por pânico, timidez e estresse pós-traumático, detalhando sintomas e formas de tratamento. A obra traz ainda depoimentos de pessoas que sofreram desses problemas

 


Folha - Que tipo de pessoa é mais propensa a sofrer transtorno de ansiedade?
Ana Beatriz Silva -
As mais perfeccionistas, as que não toleram atrasos, que são mais rígidas com os acontecimentos. Essas pessoas são mais controladoras e têm mais chance de sentir ansiedade em situações que as atrasam, que fogem do "script".

Por que um medo normal pode virar uma fobia?
Muitas vezes esse medo está deslocado e é relacionado a situações de estresse. A gente sempre associa o estresse ao trabalho, mas o maior desencadeador de ansiedade patológica é o estresse prolongado e afetivo. Isso inclui estar num casamento ruim, ter uma pessoa da família com uma doença como Alzheimer, que vai destroçando uma família.
O transtorno, na verdade, vai surgir depois de um ano e meio, dois. Muitas pessoas, mesmo vivendo uma situação assim, tendem a negar o problema. Isso pode fazer a ansiedade se manifestar como fobia. Já em quem assume os problemas, o que pode acontecer é a evolução para depressão ou transtorno de pânico, que causa crises de sudorese, sensação de morte.

Mas há situações que logo desencadeiam transtornos.
O que ocorre num espaço de tempo curto, como quando alguém sofre um sequestro-relâmpago, é o estresse pós-traumático. A pessoa não quer mais sair, começa a ter pesadelos, flashbacks. Isso surge um mês depois do episódio. Não é como pânico, que é relacionado a uma coisa cotidiana. O estresse pós-traumático acontece quando você vive uma situação que ninguém está preparado para viver: ver alguém se matando ou um assassinato.

Estamos vivendo uma epidemia desse transtorno?
Tem aumentado muito o número de casos. Uma pesquisa recente mostra que a violência está em segundo lugar entre as preocupações do brasileiro e que 51% já mudaram seus hábitos por causa da violência. Cerca de 80% já presenciaram uma cena de violência. Nessas condições, surge a possibilidade do estresse pós-traumático.

O mundo está se adaptando para abrigar tantos ansiosos?
Sim. Mas uma das formas de reagir a esse ambiente é se tornar indiferente. Um vídeo que está rodando a internet mostra uma menina na China sendo atropelada, e ninguém para. É uma cena dantesca. O mundo pode estar criando uma população de indiferentes, e isso é é muito perigoso. Adoecer de ansiedade é sinal de que somos humanos, mas que precisamos mudar algo para sobreviver com dignidade. Um quarto da população vai desenvolver transtorno. É um número assustador. Isso diz também que não estamos perdendo nossa humanidade. Mas, para preservá-la, muita coisa vai ter de mudar.

O que dá para mudar?
Tentaram nos convencer de que quanto mais ansioso você é, mais você é produtivo. Isso é uma grande mentira. Estão querendo nos convencer de que não dar conta disso é uma incapacidade. É preciso ter o mínimo de ansiedade. Mas não precisa ficar "pilhado", com uma sineta tocando para dizer se cumpri uma meta. As pessoas precisam se juntar para combater isso, e também a corrupção. Isso funciona como um ansiolítico para a sociedade.