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Matéria publicada na Folha Dirigida, 09 de setembro de 2011 - Rio de Janeiro - RJ.
"O Brasil enfrenta um processo de grave degeneração cultural"
Renato Deccache
No meio acadêmico, os debates em torno de mudanças nas práticas pedagógicas são cada vez mais freqüentes. Não são poucos os educadores que, vez por outra, propõem uma nova abordagem, uma metodologia diferenciada para tornar as atividades escolares, segundo estes mesmos estudiosos, menos entediantes e mais divertidas para o alunos. Porém, na avaliação do historiador Daniel
Saraiva, mestre pela UFRJ e doutorando em História pela Sorbonne, esta busca por tornar o ensino mais atrativo para os alunos, na realidade, tem prejudicado a própria formação educacional de nossos estudantes. Ao comparar a dinâmica de ensino no Brasil com a de países da Europa, como a própria França, onde estuda, ele lamenta a ausência do trabalho com as obras clássicas da história e
da literatura nas escolas brasileiras. "Há uma tendência crescente em despojar o aprendizado de toda complexidade, como se as reflexões aprofundadas fossem alheias à vida atual", destacou o historiador. Nesta entrevista, Daniel Saraiva fala sobre educação, língua e tradição, sublinhando o risco de se igualar cultura e entretenimento.
FOLHA DIRIGIDA - O senhor ingressou no doutorado em História pela Sorbonne, na França. Poderia nos falar sobre as diferenças da vida acadêmica na França e no Brasil?
Daniel Saraiva — Creio que há duas grandes diferenças entre as realidades acadêmicas brasileira e francesa. A primeira delas diz respeito ao vigor da cultura livresca, muito maior em França do que no Brasil. Há em França, e especialmente em Paris, uma enorme facilidade de acesso aos livros. As bibliotecas parisienses são riquíssimas, compondo uma rede que se estende das pequenas bibliotecas de bairro aos grandes arquivos documentais e acervos universitários. O mesmo vale para a diversidade dos livros em circulação. A ampla disseminação do hábito da leitura na sociedade francesa permite a perpetuação de um vasto mercado literário, com livrarias especializadas e um intenso circuito de livros usados. As especificidades do continente europeu, onde nações de tradições muito distintas coexistem em relativa proximidade territorial, também contribuem para que obras de diversos matizes intelectuais enriqueçam o universo literário francês, cuja pujança reflete o esforço continuado de longos anos de investimento em educação. O segundo ponto de contraste é o grau de interação entre os pesquisadores, maior na Europa do que no Brasil, ao que me parece. É muito comum que os doutorandos procurem os pesquisadores especializados nos temas que lhes são caros para debater suas hipóteses de trabalho. Normalmente, os professores se mostram muito abertos a esse tipo de prática, por meio da qual os doutorandos podem obter ótimas críticas e sugestões.
Qual a linha de pesquisa de seu doutorado? Em que pretende especializar-se?
Minha pesquisa de doutorado, para dizê-lo do modo mais simples e direto, consiste no estudo da manipulação política da informação na Europa moderna. Trata-se de entender como os centros de poder divulgavam notícias premeditadamente concebidas para produzir fins políticos úteis. Assim, no cenário marcado pelos últimos suspiros da Guerra dos Trinta Anos - conflito que arrasou a Europa durante a primeira metade do século XVII - os países europeus se enfrentaram em uma batalha para a qual as letras eram tão importantes quanto as armas, pois influenciar a opinião dos homens era tão significativo para a disputa política quanto arrasar fortalezas ou assediar cidades inimigas. O foco central de minha pesquisa é a Península Ibérica, mais propriamente o embate luso-espanhol conhecido pelo nome de Guerra da Restauração (1640-1668), exemplo ímpar do fenômeno que acabo de mencionar. Desde o meu mestrado, tenho concentrado meus esforços no exame das sociedades ibéricas do século XVII e pretendo prosseguir na mesma linha de especialização no doutorado, dando ênfase ao mundo da cultura escrita e ao papel do impresso como arma de intervenção política.
Tem planos de lançar algum livro a partir de sua tese ou de algum tema relacionado à História pelo qual tenha especial interesse?
Sim, pretendo transformar minha tese de doutorado em um livro que possa atingir camadas sociais mais amplas do que o círculo restrito dos historiadores. Minha intenção é que a reflexão sobre os processos históricos que fizeram da opinião um dos principais pilares do jogo político possa lançar luz sobre muitos aspectos ainda insuficientemente considerados de nossa realidade atual.
A Sorbonne é, sem dúvida, o sonho de muitos estudantes universitários brasileiros. O que é fundamental para ingressar nesta instituição?
O sistema de ingresso no programa doutoral da Sorbonne não difere muito do que acontece na maior parte das universidades. A primeira etapa do processo é estabelecer contato com um orientador. Nesse sentido, é preciso dedicar algum tempo para conhecer o trabalho dos pesquisadores em atividade e identificar qual se alinha mais com os temas de seu interesse. A segunda etapa é preparar um projeto de pesquisa. Quanto à formulação do projeto, pelo menos na área de História, o primordial é o tratamento pormenorizado das fontes documentais. Além disso, é preciso apresentar uma hipótese clara de trabalho e demonstrar que se conhece bem o estado atual da bibliografia sobre o tema em questão, explicitando a contribuição que o estudo proposto pode trazer para o avanço do saber historiográfico. Em relação às competências pessoais, creio que o domínio de línguas estrangeiras é fundamental, já que ignorar uma língua significa fechar as portas do universo cultural que ela representa. Por fim, é importante que o aluno já tenha publicado alguns textos relacionados à área de pesquisa por ele escolhida.
O senhor fez cursos de graduação e mestrado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Como avalia a qualidade da formação nestes cursos?
A UFRJ tem bons cursos de História, tanto de graduação quanto de pós-graduação, sobretudo na área de História Moderna. Entretanto, acho muito difícil falar de uma faculdade como se ela possuísse um caráter unívoco. Na verdade, a natureza do curso depende essencialmente do professor e do tipo de pesquisa por ele realizada. Em uma mesma faculdade podem existir professores de formações e inclinações diametralmente opostas. Portanto, é sempre mais razoável falar pontualmente dos professores do que da faculdade como um todo. Justamente por isso ressaltei a qualidade do departamento de História Moderna, onde atuam docentes do mais alto gabarito, tais como Carlos Ziller Camenietzki e João Fragoso.
Como analisa o quadro atual da educação no Brasil?
Creio que o Brasil enfrenta hoje um processo de grave degeneração cultural, dificílimo de combater. Essa decadência não é exclusividade brasileira - há transformações de ordem global que vêm interferindo há décadas de modo nefasto na cultura e na educação. Parece-me que, de maneira geral, vivemos hoje o caminho da "facilitação" do ensino. Há uma tendência crescente em despojar o aprendizado de toda complexidade, como se as reflexões aprofundadas fossem alheias à vida atual. As maiores vítimas desse movimento são, sem dúvida, as disciplinas humanas, já que o senso de pragmatismo ainda protege as ciências da natureza, cuja utilidade prática não é posta em xeque.
Qual a consequência desse processo?
Um empobrecimento geral na formação cultural do aluno, com danos especialmente graves para o aprendizado da língua e a formação da consciência crítica. Os textos discutidos são cada vez mais banais; a gramática é desprezada em benefício de uma forma superficial de comunicação tida como espontânea ou natural; o estudo da sintaxe é preterido, esmagado pela tirania da coloquialidade; as estruturas rebuscadas são rejeitadas em nome de uma uniformidade simplória, relegando ao esquecimento os primores da língua portuguesa; a erudição e a filosofia são ignoradas como se não passassem de um anacrônico requinte, tal qual uma reminiscência de um passado avesso às aceleradas exigências da sociedade moderna; e o próprio livro desaparece, substituído por veículos supostamente mais "dinâmicos" de ensino. Tudo tem que ser facilitado e tudo tem que ser divertido, como se a cultura devesse seguir o mesmo padrão do que hoje se chama de "entretenimento", ou seja, uma absorção passiva, sem empenho ou esforço. Acontece que certas coisas exigem preparo para serem apreciadas. Um menino de dez anos não está preparado para apreciar toda a beleza de uma obra como Dom Casmurro. Para isso, é preciso amadurecimento pessoal, moral e intelectual. E o papel da escola deve ser também o de conferir ao indivíduo os instrumentos desse amadurecimento.
E o que o senhor acha da tentativa de aproximar a escola da realidade pessoal dos alunos?
Considero um grande equívoco. A escola tem que oferecer exatamente aquilo que a realidade pessoal dos alunos não lhes oferece. Em um mundo sem cultura, sem reflexão, sem referências, a escola tem que ser o espaço onde o ser humano possa embeber o espírito nas riquezas imateriais que serão o sustentáculo de sua consciência madura. Espera-se que, diluindo a densidade dos estudos e equiparando-os ao entretenimento, o aluno absorva os conteúdos com maior facilidade. Não obstante, curiosamente, esse modelo de "facilitação" tem se mostrado incapaz de produzir grandes pensadores, intelectuais, romancistas e poetas.
Poderia nos indicar qual o sinal mais evidente deste processo de "facilitação" que, a seu ver, tem comprometido a qualidade da formação escolar?
Um indício sintomático dessa transformação de conjunto é a retirada do latim e dos textos clássicos dos currículos escolares e universitários. Enganamo-nos ao imaginar que retirando os clássicos do currículo e abandonando o ensino das letras clássicas estamos livrando o aluno de um fardo. O ensino não é sinônimo de opressão. Cultura é libertação, é elevação de espírito. Contagiados por uma ideia enganosa de liberdade, segundo a qual ser livre é fazer o que queremos quando bem entendemos, podemos supor que deixar para trás a tradição clássica e a alta cultura é liberar o estudante de uma obrigação infrutífera. Porém, o que acontece é justamente o oposto: retirar esse patrimônio das escolas e universidades é privar os alunos do direito de ter contato com a mais bela e brilhante expressão do espírito humano. Abandonado à brutalidade e ao cego pragmatismo do mundo de hoje, dificilmente o indivíduo conseguirá sozinho aquilo que a escola o privou de ter, ou seja, o conhecimento do mais sublime fruto que a humanidade pôde produzir ao longo de seus milênios de existência.
Qual a dimensão desta perda?
O matemático francês Laurent Lafforgue, em um artigo intitulado "Os estudos clássicos e a liberdade do espírito", afirma que, em se tratando do abandono dos estudos clássicos, o que está em jogo é a liberdade das gerações futuras, não a liberdade política ou a liberdade de expressão, mas uma liberdade ainda mais fundamental, que é a liberdade de poder pensar por si mesmo. Segundo Lafforgue, não mais ensinar corretamente a língua e não mais nutrir os espíritos com o estudo dos grandes autores do passado é algo pior do que a censura: é impedir a formação do pensamento, é privar as jovens gerações dos meios necessários à liberdade do espírito. Acho que o estudo da língua e o estudo dos clássicos devem ser conjuntamente retomados, pois eles compõem uma herança comum e indissociável, não apenas porque os clássicos são a consagração maior da riqueza de uma língua, mas também porque as próprias línguas, na forma que as conhecemos hoje, foram forjadas à imagem e semelhança de seus clássicos. Logo, é absolutamente lógico que o ensino do italiano seja feito a partir da obra de Dante, assim como o ensino do português deveria ter por base a obra de Camões.
O senhor identifica processo semelhante no ensino universitário?
Sim. Atualmente, os cursos de graduação consistem majoritariamente na leitura de trechos e capítulos de livros que falam de obras clássicas que nunca são lidas. É praticamente impossível que um aluno passe pela graduação de História sem ter lido algum comentário ou algum parágrafo sobre Platão, Aristóteles, Erasmo ou Voltaire. Em contrapartida, é extremamente provável que esse aluno saia da graduação sem nunca ter lido por completo ao menos uma única obra de um desses grandes autores. Como disse eximiamente Italo Calvino, os clássicos se ocultam nas dobras da memória. Eles exercem um papel formador na configuração da consciência. Por isso, a leitura dos originais nunca poderá ser substituída pela "cortina de fumaça" dos comentaristas, já que um comentário sobre um livro nunca dirá mais a seu respeito do que o próprio livro em questão. Em uma das definições que apresenta sobre os clássicos, Calvino diz que um clássico é um livro que equivale ao universo, à semelhança dos antigos talismãs. Essa é, a meu ver, uma linda maneira de dizê-lo. O conhecimento da língua e a leitura dos clássicos situam o homem na linha de continuidade de uma tradição histórica, no seio de uma comunidade cultural que se desloca no tempo e imortaliza nas grandes obras artísticas o gênio de um povo. Durante a emulação entre antigos e modernos que agitou o Renascimento europeu, era comum que os modernos, manifestando seu desejo de superar os antigos, representassem a si mesmos como pequenos homens apoiados nos ombros de gigantes. Os gigantes eram os antigos. Veja como o respeito aos clássicos do passado se harmonizava perfeitamente com a ânsia de sobrepujá-los. Os modernos se criam menores que os antigos, mas sabiam que subindo em seus ombros podiam enxergar horizontes longínquos, que nem os próprios gigantes poderiam avistar. Essa imagem simbólica reconhece na tradição e no passado clássico o manancial fundamental a partir do qual o espírito humano pode atingir maiores alturas e construir um futuro luminoso. Utilizando a mesma imagem, mas seguindo a lógica contrária, poder-se-ia dizer que abandonar o estudo aprofundado das maiores expressões do pensamento humano equivale a descer dos ombros dos gigantes e olhar o horizonte ao rés do chão.
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