Busque em nosso site

Siga-nos no Twitter

 

 

Matéria publicada na Folha Dirigida - Rio de Janeiro, 23 de agosto de 2011.

O professor dos novos tempos

Renato Deccache

Um dos principais desafios das salas de aula, atualmente, é o fato de o aprendizado não mais acontecer exclusivamente a partir do professor. Na medi da em que o acesso à internet torna-se um hábito cada vez mais frequente, mesmo entre as crianças, o aluno de hoje tem acesso a um volume de informações muito maior que o estudante de outras épocas. Deste quadro, surge uma nova demanda, em especial para quem ensina: fazer das novidades tecnológicas um aliado para conquistar seus alunos. É o que defende, por   exemplo, a professora Lígia Leite, que tem doutorado e pós-doutorado em Tecnologia Educacional, respectivamente, pela Universidade Temple e Universidade de Pittsburgh, ambas dos Estados Unidos. A educadora, que tem mestrado e formou-se em Pedagogia, em ambos os casos, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, salienta que é fundamental o professor saber adequar, ao ensino, as ferramentas de comunicação usadas por jovens e crianças hoje. "O professor de hoje precisa explorar pedagogicamente as redes sociais como fonte de informação e de interação, para que seus alunos possam construir conhecimento de maneira adequada às características e desafios da sociedade atual", destacou Lígia Leite, que é professora da Uerj, autora de livros como Tecnologia Educacional: descubra suas possibilidades na sala de aula (Ed. Vozes) e lançará, na Bienal do Livro, a obra Com Giz e Lap Top (ed. WAK).

FOLHA DIRIGIDA - Que papel as redes sociais podem ter, no curto e médio prazos, para o processo educacional nas escolas?
Lígia Leite — Em geral as tecnologias que são utilizadas na sociedade, ou seja, que fazem parte do dia a dia dos indivíduos, não têm sua origem na sala de aula nem na escola, mas a escola toma conhecimento delas a partir da vivência social dos seus alunos e enfrenta o desafio de incorporá-las às atividades pedagógicas do seu cotidiano. Hoje vivemos cada vez mais imersos nas tecnologias interativas e, dentre elas, as redes sociais que chegam timidamente às escolas, apesar de já estarem presentes nas vidas de grande parte dos alunos de ensino fundamental, médio e superior. Então, refletir sobre o papel que elas podem ter a curto e médio prazos para o processo educacional nas escolas se traduz em primeiramente, na minha visão, compreender o seu potencial comunicativo/interativo para podermos então explorar o seu potencial pedagógico, transformando mais esta tecnologia em uma tecnologia educacional integrada ao cotidiano pedagógico dos nossos alunos.

Como as redes sociais podem ser usadas pelo professor, em sala de aula, para dinamizar e tornar mais interessante o ensino?
Sabemos hoje que a aprendizagem dos alunos não mais acontece exclusivamente na sala de aula nem somente a partir do professor, que era o centro do processo educativo da escola tradicional. Profissional este que era uma forte referência social, responsável por tudo que era transmitido e aprendido nas salas de aula. A sociedade tecnológica vem mudando este cenário, uma vez que o computador e a internet disponibilizam para todos os sujeitos qualquer tipo e quantidade de informação que se deseje obter. Esta nova realidade tem modificado a maneira de se acessar informação e, mais ainda, a maneira de se construir conhecimento, que hoje não se dá mais a partir de uma fonte única de informação (o professor da escola tradicional, ou o livro) mas é irradiada de diversas tecnologias (jornal, revista, rádio, televisão, cinema, dentre outras) e também das pessoas que constroem estas tecnologia, porque afinal de contas as tecnologias são construções sociais. Assim sendo, o professor de hoje precisa explorar pedagogicamente as redes sociais como fonte de informação e de interação, para que seus alunos possam construir conhecimento de maneira adequada às características e desafios da sociedade atual.

Quais os cuidados que devem ser tomados pelos professores, no trabalho pedagógico a partir do uso de redes sociais?
Quando o professor era a única ou principal fonte de informação para que os alunos pudessem construir seu conhecimento, a tarefa de "filtrar", selecionar o conteúdo adequado a uma determinada aprendizagem era uma tarefa mais simples de ser realizada e, também, garantia ao professor melhor "controle" do que o aluno iria aprender a partir do conteúdo selecionado. Mas hoje os tempos mudaram e, como já foi mencionado, o aluno de hoje tem acesso continuado a diversas fontes de informação que disponibilizam uma gama variada de dados sobre os mais diferentes assuntos e em diversos níveis de profundidade que podem ser acessadas por qualquer indivíduo, e o uso que se faz desta informação não mais está sob o "controle" do professor. Esta realidade então impõe ao docente novas tarefas pedagógicas que devem visar o desenvolvimento do espírito crítico do aluno, de modo que ele saiba como identificar e selecionar informações interessantes, válidas e adequadas para a construção do seu conhecimento.

Há muito especialistas destacam que o uso das tecnologias pode dinamizar e melhorar o ensino nas escolas. O que falta para isto, efetivamente, acontecer?
O desafio da integração da tecnologia na sala de aula não é um "problema" característico da sociedade tecnológica, porque o conceito de tecnologia é amplo, envolvendo desde o lápis, o velho quadro negro com giz branco ou colorido, material impresso, material elétrico, material eletrônico, e qualquer outro material que venha a ser utilizado pedagogicamente, como descrevemos no livro Tecnologia Educacional: descubra suas possibilidades na sala de aula (Ed. Vozes). Porém, quando se pensa na importância e na necessidade de se trazer a tecnologia para a sala de aula, em geral o problema é apresentado como se ele dependesse unicamente da vontade do professor. Talvez isso fosse verdade quando se considerava as tecnologias mais tradicionais como o lápis e o papel, porém, a decisão, hoje de se trazer a televisão, o DVD, o rádio, o computador para a sala de aula não é simples. Ela envolve não só a relevância pedagógica para uma dada situação de ensino-aprendizagem, como também a vontade administrativa dos gestores educacionais que, por sua vez, está apoiada em políticas públicas de educação que alocam verbas para aquisição, manutenção das tecnologias e, mais ainda, para capacitação continuada dos professores que optam pela utilização de uma dada tecnologia.

Como a senhora imagina uma sala de aula daqui a 20 anos? Qual será a principal característica dela: os recursos tecnológicos modernos ou o comportamento dos alunos e professores?
Existe uma famosa história que circula no meio educacional e descreve um indivíduo que adormeceu durante décadas e que ao acordar saiu pelo mundo e não reconheceu nenhum ambiente pelo qual passava, tudo havia mudado, porém ao entrar na escola as salas de aula eram as mesmas, nada havia mudado... esta história amedronta, porque reflete a resistência que os profissionais da educação têm para acompanhar as mudanças que construímos para a nossa sociedade. Então, prever como será a sala de aula daqui a 20 anos não é fácil, mas tenho apenas uma certeza: por mais tecnologia que venha a ser integrada a esta sala de aula, muitas das quais já conhecemos e outras que ainda serão construídas, pelo menos dois elementos estarão certamente presentes - o professor e o aluno - porque o binômio humano deste processo é insubstituível. As tecnologias podem variar de acordo com o momento histórico e pedagógico, mas as pessoas que fazem parte deste processo são os reais construtores e a razão de ser da existência dos diversos modelos de sala de aula que já construímos até hoje e os que ainda vamos criar.

Uma das tendências, em especial no longo prazo, é o trabalho educacional a partir do uso das mais diversas tecnologias. Os professores, de maneira geral, ainda têm problemas com relação ao uso de tecnologias no seu trabalho diário?
Com certeza, este é um desafio antigo e que deve perdurar. As tecnologias estão em constante desenvolvimento e, à medida que evoluem apresentam novas características, novas possibilidades de utilização, novas potencialidades de aplicação pedagógica e, diante desta realidade, o professor precisa permanecer em estado de aprendizagem continuada, mas infelizmente ele não pode fazer isso por iniciativa própria, pois depende dos seus gestores e de políticas de capacitação de professores. Sabemos, entretanto, que nem sempre esses projetos acontecem no ritmo e na quantidade desejadas, apesar de existirem várias iniciativas governamentais nas esferas federal, estadual e municipal, além de iniciativas de instituições particulares que se preocupam com a formação e o bom desempenho profissional do professor que se vê constantemente desafiado pela mudança continuada da sociedade tecnológica.

O que é preciso para que os professores possam utilizar a tecnologia de forma produtiva para o aprendizado em sala de aula?
Antes de mais nada, uma sólida formação acadêmica nos níveis fundamental e médio, merecida por todos os cidadãos, independente da área profissional que seguirão na idade adulta. Além disso, conhecimento amplo, e o mais profundo possível, das tecnologias que vão sendo construídas pela sociedade e disponibilizadas para seus cidadãos, pois só assim poderão avaliar seu potencial pedagógico. É necessário também um a boa formação pedagógica, a partir da qual possa compreender os princípios gerais da educação, dos processos de ensino aprendizagem e o papel que cada tecnologia per si, ou integradas a outras, pode desempenhar no processo educativo pelo qual é responsável. Embora aparentemente simples este processo, a alfabetização tecnológica do professor, como descrevemos em nosso livro publicado pela Editora Vozes, Alfabetização Tecnológica do Professor, é complexo e continuado, mas nos parece ser a maneira que temos hoje para enfrentar este desafio que a sociedade contemporânea nos apresenta.

O que precisaria ser melhorado, na formação dos professores nas universidades, para que eles saíssem dos cursos mais preparados para trabalhar com as tecnologias no ensino?
Qualquer processo complexo como o de formação de professores sempre tem muitos aspectos que merecem atenção e que precisam ser melhorados. Mas no que diz respeito diretamente à sua capacitação para melhor trabalhar com a tecnologia sugiro que os currículos de formação de professores sejam planejados e desenvolvidos de acordo com a proposta de "alfabetização tecnológica do professor", ou seja, oportunizando aos futuros professores uma sólida formação acadêmica, acrescida de formação pedagógica e de formação em relação às tecnologias, para que possam assim selecionar, utilizar e avaliar criticamente o uso pedagógico daquelas que pretende integrar ao processo educativo pelo qual é responsável. É importante lembrar também que este complexo processo é dinâmico, está em constante transformação, porque procura sempre estar em sintonia com a dinâmica da sociedade na qual está inserido e consequentemente é continuado, permanente.

De que forma os recursos tecnológicos e a internet podem aperfeiçoar a qualidade das aulas, nas escolas?
Sabemos que as tecnologias não têm vida própria nem existem por si, isoladas do contexto sócio cultural no qual são criadas, utilizadas e avaliadas. Como bem nos lembra Manuel Castells, elas são construções sociais e, assim sendo, cabe aos professores que hoje estão nas salas de aula, sejam elas presenciais ou virtuais, explorar o seu potencial pedagógico que hoje está fortemente baseado na possibilidade inesgotável de acesso à informação que pode ser transformado em conhecimento e no potencial interativo que a internet oferece para a construção coletiva de conhecimento mediante o uso das diferentes ferramentas interativas que hoje estão disponíveis como email, Orkut, Facebook, etc.

Há vários casos de governos e prefeituras que distribuem computadores portáteis para alunos e professores. Como vê este tipo de medida?
O processo de universalização de acesso à informática inclui o acesso físico à máquina, no caso o computador, hoje um bem móvel, que pode ser transportado a qualquer lugar e que pode ser conectado à web de quase qualquer lugar do planeta. Desse modo, dar a possibilidade de acesso a ele por um grupo da população que não tem recursos materiais para adquiri-lo com seus próprios recursos pode ser uma iniciativa interessante, porém não basta distribuir computadores para a população. Já foi mencionado que a tecnologia não tem vida autônoma, ela é resultado de construções sociais individuais e coletivas. Assim sendo, se os computadores forem distribuídos para fins educacionais, eles devem vir acompanhados de um sólido projeto de capacitação para o seu uso, além de uma política de manutenção e atualização das máquinas distribuídas.

Além de distribuir os computadores, o que mais precisaria ser feito para que o uso destes equipamentos no ensino fosse realmente produtivo para o processo de ensino?
Além do que já foi dito em relação à capacitação dos alunos que recebem os computadores para que possam utilizar esta tecnologia como recurso educativo, uma vez que facilmente as novas gerações dominam o seu uso para o lazer e comunicação social, é preciso não deixar de fora desses programas os profissionais da educação que trabalham junto ao aluno para criar condições pedagógicas de construção individual e coletiva de conhecimento com o uso destas ferramentas tecnológicas. Neste caso estamos falando dos gestores educacionais, uma vez que são estes os profissionais que tomam decisões macro e que afetam todo o sistema educativo em relação à presença destas tecnologias no sistema educacional. Além deles é preciso mencionar uma vez mais os professores, profissionais diretamente responsáveis pelos processos cognitivos que podem ser planejados, desenvolvidos e avaliados em atividades sistemáticas realizadas nas nossas escolas.

E que características, apesar das mudanças no perfil dos alunos, a escola deve, de maneira geral, conservar?"
A escola não pode, no meu ponto de vista, jamais se esquecer do seu papel social fundamental que é o de educar as novas gerações. Então surge a pergunta: o que é educar? A literatura da área, bem como a sua prática, nos revelam diferentes conceitos que refletem diferentes pontos de vista e maneiras de ver o mundo; porém o que deve nortear o seu trabalho é o compromisso ético de desenvolver em cada indivíduo o seu potencial nas diferentes esferas de atuação que a vida nos exige. Esse processo formativo deve ser realizado mesclando atividades individuais e coletivas que incluam ou não a presença da tecnologia. A decisão final depende dos elementos humanos (professor e aluno) que compõem este processo e que são sujeitos e ao mesmo tempo resultados das políticas públicas propostas e implantadas nas nossas escolas.