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Matéria publicada na Folha de São Paulo, 23 de julho de 2011.

Brasileiro se define como negro, em vez de preto, diz IBGE

ANTÔNIO GOIS

Também prefere moreno ou moreno claro a pardo, segundo pesquisa espontânea feita em seis unidades da Federação

Para 64%, cor ou raça têm influência no dia a dia, sobretudo em relações de trabalho, justiça, polícia e sociais


Em vez de preto, negro. Em vez de pardo, moreno. É assim que muitos brasileiros, quando definem sua cor ou raça de forma espontânea, preferem ser identificados, segundo estudo divulgado ontem pelo IBGE.

O levantamento tem o objetivo de contribuir para as discussões sobre mudanças nessas classificações e se restringiu a seis unidades da Federação com diferentes perfis demográficos: AM, PB, SP, RS, MT e DF.

Quando tradicionalmente investiga cor ou raça, o IBGE oferece aos entrevistados apenas cinco opções: preto, branco, pardo, amarelo ou indígena. No estudo divulgado ontem, o instituto fez a mesma pergunta, mas permitindo qualquer resposta.

O resultado mostrou que o termo moreno ou moreno claro era usado por 22% das pessoas para se autodefinir. A classificação parda, que consta de levantamentos oficiais, foi lembrada por 14%.

A identificação como negro, que não está nas opções do instituto, foi usada por 8% dos entrevistados, enquanto só 1,4% se declarou preto.

O presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes, disse que o instituto ainda pretende fazer outros estudos antes de definir mudanças. Ele afirma que a tendência é que as categorias usadas atualmente sejam mantidas.

"O que estamos avaliando é a possibilidade de adicionar outros termos, ou de definir de forma mais clara em qual categoria incluir respostas espontaneamente dadas pela população", afirma.


CURINGA

José Luís Petruccelli, pesquisador responsável pelo estudo, afirma que é natural que a sociedade reflita sobre a melhor forma de identificar a população por cor ou raça.

Ele lembra que branco, preto e pardo são categorias usadas desde 1872. "De lá para cá, é razoável supor que alguma coisa mudou."

Lilia Schwarcz, historiadora autora de vários estudos sobre cor ou raça, lembra que a preferência espontânea por moreno vem sendo detectada desde 1976, quando o IBGE fez estudo semelhante.

Para ela, porém, qualquer mudança precisa ser estudada com calma, para não perder comparações históricas.

Marcelo Paixão, coordenador do Laboratório de Análises Estatísticas Econômicas e Sociais das Relações Raciais, também defende prudência.

"Não vejo problema em discutir alterações, mas é preciso tomar cuidado porque políticas públicas de ação afirmativa foram feitas pelas categorias atuais."

Paixão destacou que a pesquisa mostrou que 64% afirmaram que a cor ou raça têm influência na vida das pessoas, especialmente em relações de trabalho, justiça, polícia e no convívio social.

"É um entendimento de que ter pele mais escura é sinônimo de menos oportunidades, algo que se reflete nos salários e escolaridade menor dos negros", diz ele.