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Matéria publicada na Folha de São Paulo, 11 de julho de 2011.

Quando o médio é fundamental

WANDA ENGEL


Garantir que nossos jovens acessem, permaneçam e concluam o ensino médio passa a ser mais um desafio estratégico para a sociedade




Como sabemos, a educação brasileira é estruturada em etapas. Inicia-se na educação infantil, continua no chamado ensino fundamental que, junto com o ensino médio, constitui o ensino básico. A partir daí, segue-se, para poucos, o ensino superior.

É interessante observar que o ensino fundamental recebe esse nome por sua enorme importância no desenvolvimento de competências consideradas essenciais para a vida. Quando o Brasil ainda era uma sociedade agroindustrial, também servia como credencial mínima para entrar no mercado de trabalho.

No segundo grau (atual ensino médio), somente o técnico e o normal tinham a função de preparar diretamente para o trabalho.

As demais modalidades -científico e clássico- eram organizadas em função das opções de ensino superior, sendo demandadas pelos que pretendiam ter acesso à universidade. Daí a ideia de que o ensino médio seria apenas um "curso de passagem" rumo à universidade.

Nas últimas décadas, as exigências do mercado de trabalho em relação à escolaridade cresceram muito. Na sociedade do conhecimento, o mínimo exigido é o ensino médio completo.

Por isso, é necessário um grau de abstração e habilidades intelectuais que só são desenvolvidas em pelo menos 11 anos de escolaridade. O ensino médio não representa mais só uma passagem, mas assume o papel de "ensino fundamental" para prosseguir nos estudos e acessar o mercado de trabalho.

De alguma forma, o sistema educacional tenta responder a essa nova demanda. O aumento das matrículas no ensino médio é significativo nas últimas décadas, mas sem dar vazão às reais necessidades.

Apenas a metade dos jovens de 15 a 17 anos que deveriam estar cursando esse nível é aí encontrada.

De cada dez jovens que se matriculam na primeira série, apenas cinco concluem seu curso. Em consequência, a média de escolaridade dos jovens de 18 a 24 anos ainda é de apenas nove anos (final do ensino fundamental).

O jovem que não termina seu ciclo básico está fadado a desemprego, subemprego ou inserção no mercado marginal. Ao constituírem suas novas famílias, completam o famigerado ciclo reprodutivo da pobreza. A não conclusão do ensino médio ameaça tanto o futuro dos jovens quanto o projeto de desenvolvimento sustentável do país.

Na faixa de 24 a 35 anos, apenas 38% dos trabalhadores possuem o ensino médio. Hoje, altos níveis de desemprego entre os jovens convivem com sobras de postos de trabalho. As regiões Norte, Sul e Centro-Oeste do país já vivem o temido "apagão de mão de obra".

Avançamos muito na cobertura e na qualidade de nosso ensino fundamental, mas não dá para esperar que essa "onda" atinja o médio.

Garantir que nossos jovens acessem, permaneçam e concluam o ensino médio passa a ser um desafio estratégico para a sociedade brasileira. É preciso que tenhamos consciência de que, neste estágio de desenvolvimento do país, o médio é fundamental.

WANDA ENGEL, 66, é superintendente do Instituto Unibanco. Doutora em educação pela PUC-RJ, chefiou a divisão de desenvolvimento social do Banco Interamericano de Desenvolvimento, em Washington (EUA).