Busque em nosso site

Siga-nos no Twitter

 

 

Matéria publicada no Jornal Agora São Paulo, 30 de maio de 2011.

Preguiça e drogas lideram a evasão escolar

Adriana Ferraz do Agora

O trabalho não é mais a principal causa do abandono. Programas de transferência de renda e progressão continuada explicam esse fenômeno.

O trabalho deixou de ser o vilão da evasão escolar no Estado. O avanço do consumo de drogas e mesmo a preguiça passaram a liderar os motivos que ainda tiram crianças e jovens das salas de aula, segundo especialistas.

Há duas explicações para essa mudança: a popularização dos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família -que atrela a manutenção do benefício à frequência do aluno-, e a progressão continuada, modelo no qual o aluno progride sem repetir de ano.

Ambos fixam o jovem na escola, mas exigem que ele não trabalhe. O primeiro convence pelo pagamento em dinheiro; o segundo, pela chance de progredir sem o risco da repetência (desde que o aluno não falte muito).

A mudança de perfil, segundo a ex-secretária estadual da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, teve início há dez anos, quando os efeitos da progressão continuada começaram a ser notados em São Paulo. Ela comandou a pasta na gestão José Serra (PSDB), entre julho de 2007 e abril de 2009.

Os índices de abandono registrados no estado de são baixos. Em 2009, último dado disponível, 5% dos alunos deixaram o curso, no ensino médio, e 1,3% no fundamental. Entre os colégios municipais a taxa é de 1,1%.

Noite
Para Maria Helena, a renda extra ajuda, mas não resolve. “Metade dos jovens que estudam à noite não trabalha. Eles preferem ir à escola de manhã, mas não há vagas e, à noite, o risco da evasão é maior. Os estudantes estão mais cansados, e muitos professores, desmotivados. E há a falta de segurança e a droga.”

No Butantã (zona oeste), até 20% dos casos estão relacionados ao consumo de drogas (como álcool e maconha), segundo o conselheiro tutelar Luiz Antônio Lopes. E só 2% à necessidade de trabalhar.

Já no centro da capital, o crack é a droga que mais atrai. Não é difícil flagrar alunos carregando cachimbos no lugar de livros, em pleno horário de aula, vestidos com o uniforme escolar na cracolândia. A reportagem flagrou um deles.

“O desinteresse começa em casa. Muito adolescente não quer ir a escola porque tem preguiça. Os pais não estudaram e não incentivam”, diz Francisco Feliz da Silva, conselheiro tutelar do Grajaú (zona sul).

“Não dá para estudar e usar drogas ao mesmo tempo”
Ele deixou a escola aos 12 anos. Estava na antiga sexta série do ensino fundamental. “A professora falou na frente de todo mundo que eu era mau exemplo porque usava drogas”, conta João (nome fictício), 17 anos.

“E usava mesmo. Até vendia para os parceiros. Naquela época achava bom porque dava dinheiro”, diz o adolescente.

Hoje cinco anos depois, João está recomeçando. Faz supletivo. Afirma que todos os dias se arrepende do tempo que desperdiçou com o uso de drogas.

“Eu achava que estudar era besteira. Ia para a escola só para fumar ou cheirar cocaína até que, na sexta série comecei a pegar pesado e a peitar os professores. Foi quando não deu mais pra mim”, lembra.

João conta que tentou voltar para a escola, mas o vício não deixou. Foi internado e está “limpo” há dois anos e quatro meses.

“Não dá para estudar e usar drogas ao mesmo tempo. Um dos dois vai falar mais alto”.

Vício atinge  4 em cada 10 alunos que deixam escola
Em Franca (400km de SP), levantamento do Conselho Tutelar aponta que 40% dos estudantes que largaram a escola estão envolvidos com o uso de drogas.

Eles têm entre 12 e 16 anos e ainda cursam o ensino fundamental. No ano passado, segundo a presidente da entidade, Gláucia Limonti, foram identificados 421 aluno viciados em drogas –mais de um por dia.

“Quase todos eram usuários de crack. Essa droga chegou por aqui há uns três anos e invadiu as escolas mais carentes. O efeito dela é devastador –diferente da maconha, por exemplo, que faz o aluno dormir na aula, faltar um dia ou outro. O crack tira o adolescente da escola por semanas e, as vezes, não o deixa voltar”, afirma.

Motivos
As escolas públicas devem acionar os conselhos tutelares quando observarem faltam consecutivas de estudantes, mas podem ajudar a mediar conflitos e identificar os motivos da evasão.

Professores capacitados conseguem notar, por exemplo, os sinais que relevam quem começou a usar drogas. De acordo com Gláucia os adolescentes passam a demonstrar cansaço, queda no rendimento escolar e mudanças de comportamento.

Pais de estudantes também são aconselhados a identificar esses sinais.

Identifique os sinais
-
Faltas sem justificativa
- Queda repentina das notas
- Falta ou excesso de sono
- Troca do círculo de amizades
- Irritabilidade na sala de aula
- Acesso de gula, especialmente com doces
- Desinteresse pelas aulas de educação física.