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Matéria publicada no Jornal da Tarde, 07 de abril de 2011

Aluno tem olho perfurado em escola

MARICI CAPITELLI


PMenino de 8 anos perdeu a visão após ser agredido com lápis. Família diz que criança não foi socorrida

Um menino de oito anos perdeu a visão do olho direito ao ser agredi­do por um colega dentro da sala de aula. As duas crianças cursam a 2º série na Escola Municipal de Educação Infantil (Emef) João Amos Comenius, no Jardim Vista Alegre, zona norte de São Paulo.

A perfuração na córnea da vítima foi feita com um lápis. A família acusa a direção da escola de não ter prestado socorro ao garoto. Ele foi levado de ônibus pela própria mãe, chegando ao hospital quase cinco horas depois da agressão.

“Não me conformo com o sofrimento que meu filho está passando. Eu deixei uma criança saudável na escola e tirei uma com deficiência”, afirmou Jeane Dario Bar­bosa, de 33 anos, mãe da vítima.

O caso aconteceu no dia 3 de março. De acordo com Jeane, por volta das 15h, uma criança do bair­ro a informou que tinha visto o seu filho coma mão no olho acom­panhado de um funcionário da escola indo à Unidade Básica de Saúde (UBS) que fica ao lado da escola e de sua casa.

“Não acreditei na criança, por­que naquele horário, o meu filho estava em sala de aula.” Mas por volta das 17h, ela recebeu uma ligação da escola, dizendo que o menino havia sofrido um acidente e que deveria ir até a Emef.

“Quando cheguei lá, os funcionários disseram que não era nada grave e encontrei meu filho com um papel higiênico em cima do olho.” Como o menino reclamava muito de dor e mal conseguia ficar em pé, a mãe perguntou se alguém da escola poderia levá-los ao hospital já que ela não tem carro. "Disseram que nada podiam fazer, que o socorro cabia a mim."

Os dois tomaram um ônibus até uma unidade de Assistência Médica Ambulatorial (AMA). A médica disse que não iria mexer no olho e que imediatamente deveria ir para a Santa Casa.

Com o filho no colo, Jeane tomou mais dois ônibus até chegar à Santa Casa, na região central. O menino foi internado e no dia seguinte passou por uma cirurgia. Dois dias depois, teve alta.

Mas, segundo a mãe, o pior ain­da estava por vir. Depois de quatro consultas e algumas complicações como uma infecção, os médicos a informaram que a criança havia perdido a visão.

Desde então, a vida do menino mudou. Ele não consegue ir à escola e tem dificuldades para atividades rotineiras como colocar comida no prato ou água no copo. Não quer sair de casa e apresenta sinais de depressão.

A família da criança diz que se sente desamparada pela escola. "Além de não prestaram socorro, em nenhum momento vieram em casa para vê-lo ou mesmo saber como ele estava. É como se ele não tivesse nenhuma importância", afirma a tia Natali Dario Bar­bosa, de 22 anos.

 

'0 que precisa é socorrer a criança no mesmo dia'

É possível a perfuração da córnea com um lápis?
Sim. Se for uma lapiseira é ainda pior. Acontece também com vareta de pipa, galho de árvore.

O tempo de cinco horas para o socorro foi muito longo?
Não. É um tempo até bom, o que precisa é socorrer no mesmo dia.

Esse tempo pode ter agravado para a perda da visão?
Não é um fator determinante.

Perfuração na córnea resulta sempre em perda de visão?
Pode perder como não. Tudo vai depender da extensão do trauma, da parte atingida, se teve infecção ou não. Depende de uma série de fatores. Se tiver infecção, aí sim é um dos fatores agravantes.

Durante todo o tempo, a criança dizia sentir muita dor ao ponto de nem conseguir andar. É de fato uma dor intensa?
Sim, dói muito. O olho é um órgão com muita enervação.

O transplante pode ser uma solução?
O transplante é uma solução. Mas não é feito imediatamente. Se leva de seis meses a um ano, avaliando. Mas a partir da indicação, na cidade de São Paulo, o tempo médio de espera é de um mês.

O menino terá que ser submetido a uma nova cirurgia para a remoção da catarata e do glaucoma. A possibilidade de um transplante está sendo avaliada.

Agressor levou uma surra da mãe

Tanto a família da vítima como a do colega não sabem ao certo como ocorreu a agressão já que ambas não tiveram informações concretas da direção da escola. O que elas sabem é aversão dada pelas crianças. De acordo com elas, a vítima sentava na frente do agressor. Este o chamou e, quando ele virou, o lápis foi enfiado em seu olho. A dúvida que permanece é se foi acidental ou não.

Jorgina Maria Pereira, de 58 anos, avó do menino agressor, conta que só ficou sabendo do caso porque foi procurada pela família da vítima. “A escola em momento algum nos procurou.” No dia seguinte, ela disse que foi até a Emef. “Eles disseram que foi só um acidente. Fiquei indignada. E se um menino tivesse matado o outro, era acidente?" Segundo ela, a família ficou desesperada ao saber da gravidade.

Como punição, o garoto, que é considerado rebelde pela família, levou uma surra. “A mãe bateu muito e o castigou deixando sem sair de casa.”

Secretaria afirma que caso é investigado

A Secretaria Municipal de Educação afirmou que o caso está sendo investigado. Em nota, a pasta informou que "a Diretoria Regional de Educação Freguesia do Ó já abriu apuração preliminar para averiguar os fatos e a responsabilidade dos envolvidos. A Saúde está colaborando com a apuração".

A secretaria, entretanto, não respondeu aos seguintes questionamentos feitos pela reportagem do Jornal da Tarde: por que se demorou duas horas para avi­sar a mãe, já que a criança mora ao lado da escola; por que a direção da escola não atendeu ao pedido da mãe para que socorresse o filho até o hospital; não informou também o número de alunos na sala e se a professora estava presente. A secretaria não explicou as circunstâncias da agressão e por que a família do menino agressor também não foi informada.