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Matéria publicada no Jornal da Tarde, 18 de fevereiro de 2011.

Professores em fuga

Não constituiu surpresa a repor­tagem do jornal O Estado de São Pau­lo, do dia 2/2, sobre a quedado nú­mero de formandos em cursos que preparam docentes. O desinteres­se dos adolescentes pelo magisté­rio não se revelou repentinamen­te. É reflexo de um processo que vem se corporificando há muito tempo no exercício do magistério, aliado à decadência do ensino pú­blico monitorado por políticas pú­blicas equivocadas.

Como professora de escola públi­ca nas décadas de 1970, 80 e 90, fui testemunhada aplicação de leis, re­gimentos e normas pretensamente democráticas, inovadoras e revolu­cionárias, impostas ao professor com panaceias solucionadoras de to­dos os problemas educacionais. A escola transformou-se em entida­de predominantemente assisten­cialista e ao mestre era atribuída to­da a responsabilidade pelo insuces­so do aluno e a reprovação, se ultra­passada determinada porcenta­gem, era sinônimo de incompetên­cia didática. O professor foi perden­do sua autonomia e, sem ela, sente-se desprestigiado, desmotivado e desestimulado e seu aluno percebe esse desencanto.

Para esse processo de descons­trução, vários outros fatores contribuíram. Entre eles, ainda da pers­pectivado docente, destaco o trata­mento dispensado aos cursos de formação de professores da Educa­ção Básica. Aos docentes que atua­vam nesses cursos se recomenda­va, não oficialmente, agir com complacência e não exigir muito do aluno na atividade didática. Is­so porque o perfil da clientela, se­gundo orientadores e diretores de escola, era formado por adolescen­tes menos favorecidos economicamente e com poucos subsídios cul­turais e que, muitas vezes, ignora­vam o alcance de sua vocação.

Não seria essa uma forte razão para se elevar o nível desses jo­vens, futuros mentores da fase mais importante e decisiva do ensi­no, a alfabetização? O que pensar de cursos de graduação em peda­gogia que serviram durante algum tempo de meio de aquisição de maior remuneração para docentes e acesso à classificação privilegiada na atribuição de aulas?

Via e vejo nessa atitude facilitadora e desvirtuada uma contradi­ção que só poderia resultar no qua­dro preocupante que hoje mobili­za institutos de pesquisas, educa­dores e especialistas em educação para tentar revertê-lo. A ausência de atração pela carreira docente entre estudantes do Ensino Médio soma-se ao desalento do magisté­rio e cria uma lacuna perigosa na formação de outros profissionais? Quem irá orientá-los?

É óbvio que há soluções e elas já foram apresentadas por pesquisa­dores como Bernardete Gatti, da Fundação Carlos Chagas. Agora fal­ta aplicá-las. Os professores estão fugindo não por covardia, mas em busca da própria dignidade.

Vera Lúcia Pereira dos Santos
Doutora em lingüística e em língua portuguesa e suporte pedagógico de português no ético sistema de ensino.