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Matéria publicada no Jornal da Tarde, 3 de janeiro de 2011.

As crianças e o apelo consumista

No documentário Criança, a alma do negócio, de Estela Renner, uma entrevistadora coloca duas folhas de papel diante de um grupo de crianças. Em uma folha está escrito "comprar" e na outra, "brincar". Quem imagina que as crianças escolheram a folha "brincar", infelizmente, errou. A única criança que escolheu essa opção excla­mou surpresa: "Ninguém gosta de brincar?"

E o filme vai por aí afora, revelan­do o quanto a comunicação mercadológica vem deturpando o conceito de infância. Até mesmo o antigo alerta que nos dizia "Cuidado, atrás de uma bola vem sempre uma criança!", parece ter se alterado: hoje é o marketing que corre atrás das crianças por perceber nelas um público de fácil convencimento. Isso pela característica natural que elas têm de acreditar no que ouvem e veem e por não entenderem ainda o caráter persuasivo das mensagens.

O desenvolvimento saudável das crianças depende muito do quanto elas puderem viver plenamente a infância. É um período surpreendente em que elas estão descobrindo o mundo e construindo sua identidade. Porém, embora elas aprendam com os exemplos, é importante que a iniciativa da imitação seja delas.

Uma coisa é crianças imitarem adultos por conta de sua curiosidade natural. Outra, bem diferente, é adultos interferirem nesse gesto espontâneo, sugerindo que elas devem abandonar rapidamente a infância para aderir mais cedo aos hábitos de consumo. Foi Piaget quem disse: "Tudo o que se ensina a uma criança, a criança não pode mais, ela mesma, descobrir ou inventar."

Incentivar garotinhas mal saídas das fraldas a se maquiar e se vestir como miniadultas ou tomar como natural o modo como muitas já até discutem sua relação amorosa no celular é dizer a elas que a infância não é interessante e que devem abandoná-la. Convencer adolescentes de que a bebida pode torná-los mais bem sucedidos e felizes é justamente impedir que eles alcancem essa condição devida dados os malefícios do vício do álcool.

O melhor investimento que podemos fazer pela construção de um mundo melhor é enviarmos ao futuro cidadãos física e emocionalmente saudáveis. Para isso, as crianças devem crescer livres da compulsão consumista e de sua consequente contribuição para a obesidade infantil, a erotização precoce, a violência, o materialismo e a crença de que ter é mais importante que ser. É do brincar espontâneo que brota a criatividade, o gosto pela descoberta, a sociabilidade e a certeza de que a inclusão do outro é fundamental para que o "jogo" da vida aconteça Preservar tudo isso é preparar caminho das novas gerações e um sinal de que a criança que fomos um dia permanece viva dentro de nós.

Maria Helena Masquetti
PSICÓLOGA CLINICA ATUANTE NO PROJETO CRIANÇA E CONSUMO DO INSTITUTO ALANA