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Matéria publicada na Revista Veja, edição nº 2241

AOS PEQUENOS, COM CARINHO

As escolas públicas da paulista Marília oferecem ensino básico com a qualidade das boas particulares.
Já em Vitória da Conquista, na Bahia, o cenário é de guerra

JÚLIA DE MEDEIROS

Na Escola Municipal Edméa Braz Rojo Sola, em Marília, no interior paulista, o toque do sinal indica o fim das aulas, mas não o término das atividades. Esse é o momento que muitos pais aproveitam para conversar com os professores sobre o desempenho e o comportamento de seus filhos na sala de aula. A participação da família na vida acadêmica das crianças é a regra na maioria das escolas da cidade. O resultado é evidente. Marília obteve a maior nota no índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), medido pelo Ministério da Educação nos anos iniciais do ensino fundamental. "Para mim, esta escola é uma extensão da minha casa. Eu a considero tão boa que nem penso em matricular meus filhos em urna instituição particular", diz a empresária Silvânia Fontana, mãe de Luana, de 11 anos, e Luciano, de 8.

Além do interesse dos pais, o bom desempenho das escolas de Marília se baseia em instalações impecáveis, capacitação dos professores e gestão. No mês passado, por exemplo, os educadores tinham dezenove opções de cursos de aperfeiçoamento à disposição. Há lista de espera para frequentar as aulas desses cursos. Os professores também são cobrados. No início de cada semana, devem apresentar o planejamento de suas aulas. Às sextas-feiras, faz-se uma avaliação do que foi realizado. Também é ponto de honra estimular o gosto pela leitura. Todas as crianças levam semanalmente um livro para casa. Os pais têm o compromisso de acompanhar a leitura e anotar em um formulário suas observações a respeito do desempenho das crianças. Essa rotina é seguida do berçário até o término do ensino fundamental.

A cidade de Vitória da Conquista, na Bahia, é o exato oposto desse cenário acolhedor. Lá, algumas crianças ingressam no 1º ano do ensino fundamental da rede pública sem reconhecer letras, números ou mesmo o nome das cores. Em 2009, a prefeitura fez um levantamento aterrador: no 3º ano, metade dos alunos ainda não estava alfabetizada. É o caso de G.S., de 12 anos. "Queria saber ler e escrever como meus amigos, mas não sei se vou dar conta", desabafa. 0 menino estuda na Escola Municipal Dom Climério de Almeida Andrade, que obteve a nota mais baixa da cidade no Ideb: 0,7. Tão precária quanto a qualidade da educação é a estrutura física do lugar. Em dias de sol intenso — que no sertão da Bahia não são poucos — as telhas de zinco transformam as salas de aula em fornos. Na estação chuvosa, o barulho da água no telhado impede que os alunos ouçam o professor.

É um pecado: crianças com deficiência de formação nos primeiros anos de ensino dificilmente recuperam o tempo perdido. E a situação regride: a nota média da cidade no Ideb, que em 2007 já era inadmissível — 3,8 —, caiu para 2,9 em 2009.

Atribuir o fracasso na educação a outros problemas municipais, como pobreza ou criminalidade, é uma desculpa irresponsável. A conflagrada Marabá, no Pará, por exemplo, escolheu a educação para reagir à violência. Entre 2005 e 2009, a nota média 2 no Ideb saltou de 2,7 para 4 — o maior aumento registrado pela reportagem de VEJA. Para isso, as autoridades trilham um caminho semelhante ao de Marília. Os professores passaram a ter reuniões mensais para avaliar o próprio desempenho e o aprendizado das crianças, e o município lançou uma campanha para estimular a participação dos pais na vida escolar.

"A melhora só acontece com uma boa gestão nas escolas, definição de objetivos claros a ser atingidos e capacitação de professores", ensina o especialista em educação Gustavo loschpe.
Sempre é possível reagir.